Quatro jogos, quatro vitórias, duas delas frente a dois grandes portugueses. Desde 2015/16 que um treinador bracarense não vencia, na mesma temporada, dois dos grandes. O momento da mudança operada por Rúben Amorim já tem uma base onde se construir.

Mudança: Tática

Estreando-se como novo treinador do SC Braga há cerca de 15 dias, Rúben Amorim foi lesto a apontar quais os seus objetivos para o ciclo que iniciava. 

É o início de um novo ciclo, vai muito mais além da mudança de treinador, é algo muito mais profundo, é o tentar criar uma nova identidade e achamos ser o momento ideal. O Braga cresceu muito e é necessário criar uma identidade desta cidade, deste clube. Criar algo único que reflita a cidade, o clube e este crescimento. – Conferência de imprensa de apresentação do técnico. 

A primeira leitura desta mudança fez-se no sistema tático utilizado por Amorim. À imagem do que já tinha feito no Casa Pia e no Braga B, montou a equipa com três centrais, largura oferecida pelos laterais, extremos agressivos na procura do espaço interior e confiança total num ponta-de-lança que tem dado provas nas competições nacionais. 

O resgate tático da equipa surgiu num momento em que nenhum dos objetivos do clube estava colocado em causa. Ricardo Sá Pinto levou a equipa a uma excelente campanha europeia (que terá continuidade em Braga), saíra da Taça de Portugal a dar luta ao Benfica até aos minutos finais, olhava para o quarto lugar da tabela da Liga portuguesa como uma possibilidade a ser perseguida na segunda volta. 

Mudança: Identidade

Aí surge a segunda leitura da mudança de Rúben Amorim. A capacidade para levar a que a equipa assuma uma identidade que a una à cidade. O sistema tático, aí, é apenas uma nota lateral. Ajuda, obviamente, a demarcar a diferença entre a principais equipas nacionais, mas precisa de mais. E uma das notas que faz a diferença é o resultado. 

Depois de uma vitória fácil frente ao Belenenses SAD e uma outra, suada, frente ao Tondela, onde a equipa demonstrou, largamente, os seus atributos ofensivos, a vitória no Dragão trouxe a primeira oportunidade de começar a construir uma ponte com a história do clube. A segurança exibicional da equipa ainda é colocada em causa (tal como aconteceu, também, frente ao Sporting, durante fase da primeira parte), mas a busca da vitória parece demonstrar um câmbio mental.

A última vez que um mesmo técnico bracarense tinha vencido partidas frente a dois grandes foi em 2015/16, com Paulo Fonseca. Antes disso, apenas em 2009/10, com Domingos Paciência. Pelo meio, Sérgio Conceição tinha vencido por duas vezes o Benfica na mesma época (2014/15). O que demonstra que, na última década, a aproximação do SC Braga aos três grandes se tinha feito, apesar de isso não acabar totalmente demonstrado nos confrontos diretos.

Mudança: Ser Treinador

Está aqui um bichinho na cabeça a dizer-me que isto muda de um dia para o outro. – no pós-jogo da meia-final da Taça da Liga

Rúben Amorim demonstra estar consciente do momento que atravessa. Sem dúvida alguma que, para lá da alteração tática, o primeiro impacto do seu trabalho seria realizado na leitura do que poderia acontecer nesta Final Four. O primeiro passo está dado, com a presença na final. Mas aquilo que preocupará o treinador dos bracarenses será o que vem depois. O crescimento estrutural da sua ideia de jogo será um traço a ser seguido nos próximos meses. Os resultados, o momento que lhe permitirá crescer de forma mais rápida (no começo) e sustentada (no longo prazo). 

Este teste a longo prazo é também um teste pessoal ao processo de formação de Rúben Amorim. Nos nossos dias, o trabalho do treinador principal de uma equipa confunde-se muito com o de gestor e líder de um conjunto de profissionais que preparam, nas diversas vertentes, a equipa. O “génio tático” é aquele que se revela logo nos primeiros tempos de trabalho. O líder surge depois, na forma como gere expetativas já não demarcadas pelos técnicos anteriores. O treinador, na totalidade das suas capacidades, é aquele que no longo prazo demonstra capacidade processual de evolução, com adesão plena dos elementos que fazem parte do seu grupo. 

Com a base alcançada, a ambição de Rúben Amorim é clara desde o dia da sua apresentação. Conjugar lado desportivo com impacto social. Este pode ser o ponto de partida da afirmação de um quarto grande no futebol português. 

Esta noite estarei na SIC Notícias para a análise ao encontro entre Vitória SC e FC Porto, a segunda meia-final da Taça da Liga. 

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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