Pode uma conjugação adversativa marcar a diferença sobre o entendimento do jogo? Foi esse o desafio lançado por um utilizador do Twitter durante o encontro entre Bétis e Barcelona, o que me leva a esta reflexão acerca da bola parada, dos momentos do jogo e à procura de uma conclusão que precisará de mais dados para ficar esclarecida. 

Mas, conjução adversativa

Durante a transmissão do encontro Bétis – Barcelona, na Eleven Sports, caracterizei desta forma os golos marcados pelo conjunto catalão: 

“O Barcelona tem cerca de 70% de posse de bola, mas chegou à vantagem com dois golos a partir de bola parada”

Esta frase foi contrariada, no Twitter, pelo @almaradona, conjugando-se um excelente ponto de partida para uma reflexão sobre a posse de bola, a caracterização dos momentos do jogo e os esquemas táticos numa partida de futebol. 

A utilização da adversativa, designando uma oposição, procura reforçar uma diferença na categorização dos golos marcados por uma equipa. É globalmente aceite essa adversativa entre situações de ataque organizado e de transição, pela forma como cada um dos momentos do jogo pode acabar por caracterizar, de uma forma mais universal, os modelos e princípios de jogo adoptados por cada coletivo. Mas, no que toca aos esquemas táticos, a diferenciação acaba por ser mais prática (na sua abordagem concreta) do que teórica. Por isso, tal como na forma como as situações de bola parada são conquistadas, as melhores equipas têm, muitas vezes, formas variadas de abordar esse “momento” 

Bola parada, momento do jogo?

Uma das discussões sobre a definição dos momentos do jogo tem-se centrado nas questões da bola parada. Jorge Jesus, atual treinador do Flamengo, tem sido um dos elementos mais vocais na defesa do “quinto momento”, como em tempos definiu: 

“É um momento de jogo como outro qualquer, como o contragolpe, o ataque posicional, a organização defensiva… A bola parada é mais um momento de jogo, por isso é que todos dizem que há quatro e eu digo que são cinco, a bola parada é mais um.” (1)

Por oposição a esta noção de “quinto momento”, Ricardo Ferreira, um dos mais interessantes teóricos do jogo em Portugal, enquadra no sub-momento da Criação do momento da Organização Ofensiva os lances de bola parada, definindo-o deste modo: 

“Neste sub-momento, integram-se também todas as situações de bola parada ofensivas que poderão permitir um último passe ou cruzamento e finalização. Devemos referir que compreendemos as opiniões que distinguem as situações de bola parada como um quinto momento do jogo, porém a nossa interpretação é que, independentemente do jogo estar parado ou em movimento, se uma equipa está organizada para defender essas situações e outra para atacar, então estarão dentro da sua Organização Defensiva e Organização Ofensiva, respectivamente”. (2)

Pegando, então, no entendimento de Ricardo Ferreira, desenvolvido a partir dos trabalhos de Carlos Queiroz e Jesualdo Ferreira, podemo-nos aproximar da ideia de uma conjugação da bola parada como um momento de Organização Ofensiva. Nesta linha de pensamento, o assumir de princípios e estratégias de Criação permitem, com facilidade, entender a aproximação das respetivas ideias. A situação de Bola Parada é encarada no todo das decisões operadas para o momento de Organização Ofensiva, conjugando-se com ela a união com os momentos de Transição que poderão ocorrer após essa situação. 

Desta forma, na definição de Ricardo Ferreira, o trabalho realizado por uma equipa no momento Ofensivo já enquadra todas as propostas necessárias para fazer a ligação entre jogo corrido e bola parada, evolução de uma situação para a outra e elaboração dos comportamentos para cada um dos quatro momentos do jogo.

Correlações entre Posse de Bola e Bola Parada

Na origem da reflexão não está, no entanto, o entendimento do momento de Organização Ofensiva, conforme esclarecido no ponto anterior, mas a correlação entre Posse de Bola e situações de Bola Parada. A reflexão sobre correlações dentro de um jogo coletivo pode, com alguma facilidade, transformar-se num exercício de espeleologia. No fundo, tudo aquilo que acontece num jogo está, de alguma forma, correlacionado. 

A medida da Posse de Bola acontece quando estamos em jogo corrido e é fácil de entender que será sempre a partir de um lance de bola corrida que ocorrem bolas paradas, como livres diretos e indiretos, cantos, pontapés de baliza ou lançamentos de linha lateral. Lances como livres e lançamentos de linha lateral podem decorrer de qualquer um dos quatro momentos do jogo. Cantos e pontapés de baliza estão, de uma forma generalizada, associados a momentos de Organização ou Transição Ofensiva, os primeiros, enquanto os segundos a momentos de Organização ou Transição Defensiva. 

Esta variedade de possibilidades torna mais difícil a correlação direta de toda a posse de bola com os lances de bola parada. Olhando para dados estatísticos da temporada passada em seis ligas diferentes (Bundesliga, Premier League, LaLiga, Serie A, Liga NOS e Brasileirão), podemos confirmar isso mesmo. 

TOP 5 de Cantos, Faltas Sofridas e Posse de Bola nas últimas edições da Bundesliga, Premier League, La Liga, Serie A, Liga NOS e Brasileirão. (3)

A correlação entre posse de bola e cantos conquistados tende a ser evidente. Nas seis competições analisadas, a maioria das equipas com mais posse de bola está também no topo da tabela das equipas com mais cantos. Olhando para o TOP 5 de cada Liga em cada uma destas categorias, a Série A italiana repete quatro equipas, enquanto todas as restantes Ligas têm três equipas coincidentes. 

No que toca a uma correlação entre Posse de Bola e Faltas Sofridas, os dados já não apontam no mesmo sentido. Na LaLiga, são três as equipas coincidentes nos dois TOP 5, enquanto na Premier League duas equipas coincidem no topo desta tabelas. No entanto, nas restantes provas consultadas, Liga NOS e Brasileirão só apresentam uma equipa, enquanto Série A e Bundesliga não têm qualquer semelhança no TOP 5 de Posse de Bola e Faltas Sofridas. 

Uma conclusão inconclusiva? 

Daqui poderá decorrer que as duas conclusões são possíveis. Se as situações de canto são facilmente correlacionadas com o momento de Posse, as situações de Livre Direto e Indireto carecem de um estudo mais aprofundado (cujos dados a que tenho acesso não permitem). O passo seguinte da reflexão sobre a categorização dos golos poderá implicar uma diferenciação dos tempos de posse pelos diferentes momentos do jogo ofensivos (Organização e Transição), bem como delimitar novas leituras para a diferenciação de cada um dos golos a partir da bola parada. 

(1) Citação de Jorge Jesus retirada e corrigida do artigo do Jornal Observador. Para uma explicação da Bola Parada como quinto momento do jogo, consultar o artigo de Bruno Baquete.

(2) Citação de Ricardo Ferreira do seu site, Saber sobre o Saber Treinar.

(3) Dados TotalCorner.com e WhoScored.com

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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1 comentário

  1. Parabéns pelo artigo e investigação Luís Cristóvão, e obrigado pela fundamentação com as referências apresentadas.

    Devo referir que não penso nas situações de bola parada apenas no sub-momento de criação da Organização Ofensiva. Aí, apenas as que permitem um último passe (à partida perto da baliza adversária), e que possuam uma razoável probabilidade de sucesso na criação de uma oportunidade de finalização. Porém, existem também situações de bola parada nos sub-momentos de construção e finalização, assim como em oposição, nos três sub-momentos da Organização Defensiva. E importa acrescentar que algumas delas também surgem nos momentos de Transição, quando as equipas marcam de forma rápida uma situação de bola parada, apanhando a equipa adversária ainda no sub-momento de recuperação defensiva. E esta é uma das razões para que contemple as situações de bola parada nos quatro momentos do jogo e não como um quinto. Elas estão dependentes de Transição e de Organização.

    Sobre a questão que deixas, a proposta que apresento também pode ajudar a responder à mesma. Isto porque a posse de bola pode apresentar diferentes características e intenções. Se a mesma se realizar fora do bloco adversário, portanto, predominantemente no sub-momento de construção, e se o adversário estiver confortável com o resultado e com a sua estratégia, este poderá permiti-la sem procurar acelerar ou ser mais agressivo na tentativa de recuperação da bola. Eventualmente, levando-o a realizar menos faltas. Ao invés, se a posse surge muitas vezes no interior do bloco adversário, e consequentemente em condições de último passe e até finalização, deste modo nos sub-momentos de criação e finalização, então quem defende tenderá a aumentar a sua agressividade defensiva, o que também poderá levar a mais faltas cometidas. É uma potencial explicação. Com certeza, dada a complexidade do jogo, existirão mais.

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