O Clube Desportivo de Mafra é sensação no topo da LigaPro, envolvendo-se na luta pela promoção com um dos orçamentos mais baixos da competição. O seu treinador, Vasco Seabra, apresenta nos princípios da equipa aquelas que têm sido as ideias por si defendidas desde que chegou a treinador principal.

Os vários passos de Vasco Seabra

O percurso de Vasco Seabra será um tanto atípico. Teve a sua primeira experiência como treinador principal no Lixa, nos Distritais do Porto, passou pela formação do Paços de Ferreira, a sua terra natal, até que atingiu o cargo na equipa profissional, tendo começado como interino, na Liga NOS, passou pelo FC Famalicão na Segunda Liga, pelos Sub-23 do Estoril Praia, até chegar a Mafra no início desta temporada. 

No clube mafrense, os objetivos do início de época não seriam outros que a manutenção no segundo escalão profissional do futebol português, depois do 14º lugar alcançado na época passada. O plantel foi reformulado e depois da passagem pela Liga Revelação, Vasco Seabra encontrou nesta equipa uma oportunidade para voltar a demonstrar as suas capacidades para organizar um conjunto. 

Ideia, processo, diferenciação

“Eu quero ganhar sempre agarrado a uma ideia. O processo é fundamental. Aposto muito na primeira fase de construção, não quero bola direta no ponta-de-lança e acreditar nas segundas bolas. Corremos alguns riscos na primeira fase de construção, mas temos jogadores com coragem. Errar é normal, se calhar vamos expor a equipa, mas sei que muitas vezes vou criar situações de golo também. Este equilíbrio, esta balança, é fundamental.” (1)

Vendo os encontros do CD Mafra, a primeira fase de construção é um ponto distintivo do pensamento de jogo de Vasco Seabra. A equipa parte de uma linha de três elementos (curiosamente, um princípio já utilizado por Luís Freire quando foi campeão do Campeonato de Portugal no mesmo clube), lançando os laterais na profundidade e tentando organizar em posse a sua postura no terreno de jogo. Assumir estes princípios na LigaPro é um comportamento que revela o conforto que o treino traz. 

Sendo natural encontrar momentos em que a equipa fica demasiado exposta, ou comete erros, é a partir desta postura na primeira fase de construção que o Mafra consegue, depois, aumentar o número de peças já dentro do bloco defensivo adversário. A equipa junta dois médios e os dois pontas no corredor central, deixando as faixas aos laterais e atua, normalmente, com apenas um elemento na frente de ataque. Esta sobrecarga no corredor central serve para alimentar a criação de oportunidades, muitas vezes com combinação dentro-fora. 

Exposição e controlo no jogo

“Eu prefiro ter controlo e organização sobre os meus jogos. Entusiasma-me mais ver a equipa saber o que fazer com bola, reagir à perda e saber de que forma deve construir de imediato. É isso que cria fluidez na dinâmica. Mas gosto de um jogo positivo. Não gosto de ter só posse e fazer dois remates o jogo inteiro.” (1)

Com 20 jornadas disputadas, o Mafra divide com Estoril e Académica o título de equipa mais concretizadora. Defensivamente, apenas em cinco ocasiões teve a baliza a salvo de qualquer golo sofrido, mas, também aí, se apresenta na metade cimeira da tabela (7ª defesa menos batida). A exposição assumida pela equipa vem compensando na classificação, alimentando a ideia de que o Mafra pode mesmo lutar pela subida com equipas mais apetrechadas em termos de plantel. 

Essa exposição acaba, no entanto, por se encontrar com as ideias que Vasco Seabra já defendia em 2017, quando era ainda técnico do Paços de Ferreira. Uma equipa consciente dos seus comportamentos, que sabe como reagir em cada um dos momentos do jogo, que entende bem a forma como deve encarar as exigências encontradas num campeonato onde o equilíbrio é, quase sempre, nota dominante. A equipa demonstra-se agressiva no momento defensivo, posicionando o seu bloco alto no meio-campo rival, tentando criar dificuldades ao adversário. Sem que esse fosse, visivelmente, o plano inicial, o Mafra acaba por se colocar, assim, no foco da atenção de quem segue a LigaPro.

Valorização, experiência e expetativa

“O Mafra é um clube que está a procurar estabilizar-se na II Liga e somos um dos orçamentos mais baixos. Somos um clube que procura promover um jogo de qualidade e promover os jogadores que tem à sua disposição para poder acrescentar uma estabilidade ao seu percurso.Temos muitos jogadores valorizados por aquilo que estão a fazer. Estamos numa posição mais alta, na II Liga, do que as pessoas estavam à espera, mas tenho um grupo de jogadores com uma vontade muito grande de serem referências e é este caminho que temos de percorrer.” (2)

Zé Tiago, de 31 anos, será o jogador que mais se tem valorizado nesta campanha com os mafrenses, já que para além de ser o jogador que bateu mais cantos na competição, aparece referido no topo das tabelas dos jogadores com mais remates (3º) e faltas sofridas (5º). Atuando como médio mais ofensivo, é o jogador que está no coração de quase todas as situações ofensivas do Mafra, pela sua capacidade de gerir posse, bem como no sentido posicional apresentado. 

Três jogadores foram titulares em todas as partidas da LigaPro, o guarda-redes João Godinho e os laterais Rúben Freitas e Joel. Joel, o lateral esquerdo, é mesmo um dos melhores marcadores da equipa, com cinco tentos, tantos como Zé Tiago, num conjunto onde já dez elementos fizeram o gosto ao pé. A três pontos do segundo classificado, o Farense, o Mafra desloca-se neste próximo fim-de-semana ao terreno da Académica, equipa em franca recuperação. Um bom resultado poderá manter a equipa de Vasco Seabra no trilho da surpresa. 

(1) Entrevista ao MaisFutebol em 2/05/2017

(2) Declarações ao MaisFutebol em 20/12/2019

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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