Artur Pinheiro terá sido dos mais jovens guarda-redes a estrear-se na Primeira Divisão, decorria a época de 1951-52, num Salgueiros – Barreirense disputado na cidade do Porto. Mas a sua paixão pelo futebol começou bem mais cedo.

Artur PinheiroNa “moderna vila industrial e operária” do Barreiro, no início dos anos 40, Artur Pinheiro era um dos muitos jovens que praticava o futebol do pé-descalço, guardados que eram os sapatos para os bailes de domingo. Filho de um negociante de sucata, Artur cedo demonstrou apetência para a baliza, e começou a praticar futebol oficialmente nas equipas jovens do Barreirense. Corria, então, a época de 51-52 quando Francisco Silva, guardião titular da equipa do Barreirense, se lesionou. Perante a urgência de encontrar um substituto, a direcção pediu uma autorização especial para utilizar o jovem Pinheiro, na altura, com 17 anos. A viagem para o Porto, segundo Artur Pinheiro, foi um espectáculo. “Quando estava no balneário, um dos directores chegou ao pé de mim e perguntou-me se eu estava preparado para tamanha responsabilidade. Eu sorri para ele e respondi-lhe que uma grande responsabilidade tinha um condutor de transportes de crianças. Jogar futebol era um divertimento”. Não terá sido sem algum pavor que o dirigente do Barreirense ouviu tão insolentes palavras. Mas a verdade é que Pinheiro conquistou o público que assistia ao jogo nessa tarde, acabando o Barreirense por sair vencedor da contenda. Durante essa época, ainda com idade júnior, haveria de disputar 14 jogos na Primeira Divisão.

Mas como, na altura, o futebol não era ocupação que garantisse a subsistência de ninguém, o pai de Artur Pinheiro chamou-o para uma conversa. Estava na hora de fazer uma escolha: ou voltar à escola ou aprender um ofício. Consultou-se o Presidente da Câmara do Barreiro, amigo da família, e o jovem Artur começou a partilhar os dias entre treinos e aulas na Escola de Soldadores, em Belém. Diz o próprio, “na altura, eu era um Rodolfo Valentino. Usava brilhantina, vestia bem. Para além disso, toda a gente queria cumprimentar o Pinheiro. Aparecia nos jornais e as pessoas queriam falar comigo”. Pinheiro completou seis épocas na primeira categoria do Barreirense, partilhando a baliza com o já referido Francisco Silva e Isidoro. Em 57-58, deu-se a sua transferência para o SCU Torreense. “O dinheiro da transferência havia sido conseguido entre alguns empresários de Torres Vedras, entre os quais o administrador da Casa Hipólito. Quando cheguei à cidade, encontrei-me com ele e disse-lhe que gostaria de trabalhar na empresa. Como já tinha aprendido o ofício, tornei-me funcionário da Casa Hipólito, onde fiquei muitos anos”. Com a camisola do Torreense fez duas épocas na Primeira Divisão. Reconhecido como um grande atleta, “chegava a ir a correr de Torres Vedras a Santa Cruz, dando meio volta e voltando para casa. Toda a gente dizia que o Pinheiro era maluco, mas como eu não era muito alto, tinha que ter ginástica para sobressair na baliza”. É provável que o jogo de maior destaque que Pinheiro disputou na Primeira Divisão tenha sido o último. Na última jornada do Campeonato de 58-59, Pinheiro foi considerado um dos melhores em campo, num jogos frente ao FC Porto. O Torreense acabou por sair derrotado por 0-3, sendo que o Porto festejou o título nacional com uma vantagem de apenas um golo sobre o Benfica.

Artur Pinheiro nunca representou a Selecção Nacional, tendo, no entanto, participado nos treinos da Selecção Militar. Disputou, na altura, a titularidade com Dinis Vital (Lusitano de Évora), mas um dedo fracturado na véspera de uma viagem a Itália, deixou-o sem qualquer internacionalização. “Estava destinado a não ir a Itália.” No final da sua carreira, deixou o Torreense para representar o Caldas e o Peniche, na altura na 3ª Divisão. Pinheiro tinha 38 anos, mas na reunião com o Presidente do GD Peniche, foi deixado à vontade para pedir o quanto queria para assinar contracto. Sendo que ele mantinha o emprego na Casa Hipólito, pediu para receber o mesmo ordenado que os outros guarda-redes da equipa, mais 60 contos de luvas. “O Presidente esfregou as mãos e passou-me logo o cheque. Quando saí da reunião, sentei-me num banco de jardim, lá em Peniche, e quase chorei. Se tivesse pedido 200 contos, eles tinham-mo dado”. Foi a sua última época como jogador. Depois disso, dedicou-se à sua actividade profissional de soldador, tenho trabalhado em Portugal e na Alemanha. Hoje em dia, Artur Pinheiro é um homem orgulhoso da sua carreira. É impossível não notar como brilham os seus olhos, sempre que lhe relembram algum dos seus feitos na baliza.

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