Semana 22 – Vivemos tempo em que a multiplicação de vozes tornam muito mais difícil o encontrar de um caminho para fazermos a nossa evolução. E se isto se aplica aos treinadores, que mesmo expostos a diferentes pressões, são adultos com experiências de vida de onde devem ter colhido a capacidade de responder aos casos que lhes caem em mãos, imaginem quando estamos a falar de crianças e adolescentes.

apontar o caminhoEm primeiro lugar, o jovem atleta tem que adaptar-se à realidade em que se insere com acesso a uma pequeníssima experiência de vida. Um treinador pode influenciá-lo de forma preponderante na forma como ele vê o jogo e qualquer nota dissonante a essa visão cria-lhe uma enorme dúvida sobre qual a melhor forma de jogar o jogo. Acresce-se que, de forma natural, o jovem atleta dá privilégio ao seu conforto, ao espaço onde erra menos vezes e onde é menos vezes exposto à possibilidade de falhanço e correção. Para além do mais, o pouco conhecimento e contacto que tem com o jogo, pode ser determinante. Tenho sublinhado muitas vezes que os jovens não têm acesso, nos dias de hoje, a suficientes jogos completos, ora limitando o seu gosto pela modalidade junto daqueles que lhe são mais próximos – e onde a variedade de decisões a tomar está longe do nível necessário para conhecer, em profundidade, o jogo -, ora ficando-se pelos curtos vídeos das melhores jogadas – que torna irrealista a ideia que se tem do jogo por completo.

Aquilo que o jovem atleta é, depois, multiplicado pelo conhecimento que os pais e os amigos mais próximos têm do próprio jogo e, para além disso, do processo de formação em que estão envolvidos. Os adultos têm a tendência para acreditar que as opções são fechadas. Se o jogo corre mal, é porque os jogadores não se esforçaram o suficiente. Se a equipa não dá resposta a um nível de exigência determinado, é porque os outros são melhores. Se o treino não segue a ideia, hoje tão ultrapassada, do treinador enquanto um ditador de ordens, é porque está em causa a disciplina da equipa. Essas vozes ecoam junto do atleta que, dentro do seu limitado conhecimento, não está a encontrar uma experiência de sucesso ambicionado.

Finalmente, neste túnel de ecos, surgem ainda as opiniões dos outros atletas, as experiências pessoais destes, o peso que a comparação tem nesta idade. Tudo é medido com o óculo da unicidade, porque quando somos muito novos, temos a noção da nossa individualidade ainda afastada da noção de que há muitos como nós pelo mundo inteiro. Então, a correção do treinador, a oportunidade não recebida, o minuto a mais sentado no banco, o jogo, ganho ou perdido, do colega da escola que atua numa outra equipa, tem um peso de milhares de quilogramas sobre os frágeis ombros do jovem atleta.

Ao treinador, resta o papel de apurar o ouvido do atleta, para que este entenda a diferenciar as vozes, a relativizar os pesos, a entender que o seu caminho se faz através da sua dedicação à modalidade que tanto gosta. Por isso é fundamental explicar e voltar a explicar os princípios que a equipa tem no jogo. Por isso é obrigatório relembrar os objetivos da equipa a cada momento. Por isso é tão importante demonstrar, pelo exemplo, que a justiça e o prazer do trabalho numa equipa está, exatamente, em cada um conhecer o seu papel e executá-lo em conformidade. Para que, no final, todos sintamos o sucesso como nosso.

Amanhã há treino!

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