Num mundo dominado pelas tecnologias da comunicação, continuamos a valorizar a voz do treinador enquanto âncora que marca o ponto onde estabelecer objetivos, ambições, disciplina e concentração. No entanto, como em tantos outros campos, confundimos também, tantas vezes, o valor das próprias palavras, e onde devíamos entender a voz como um conjunto alargado de qualidades associadas à liderança e à comunicação, acabamos muitas vezes por valorizar apenas a sonoridade da mesma.

É por isso que em tantos campos e pavilhões, durante treinos e jogos, se ouve tanto grito da parte de quem deveria liderar na compreensão. A voz do treinador não se avalia no seu timbre ou na forma como esta ecoa no campo de jogos, mas sim na qualidade daquilo que esta transmite.

Comecemos então pelo princípio, um treinador dirige-se a um dos seus atletas e verbaliza um conjunto de palavras. A escolha destas palavras é o primeiro grande desafio, até porque a linguagem utilizada – de que forma é ela entendida, qual a forma como ela é habitualmente utilizada, que palavras-chave se irão sobrepor às outras – modifica por completo o impacto que esta pode ter.

O discurso do treinador é também influenciado pelo momento, lugar e aspeto do mesmo. Pensada a utilização das palavras, é preciso que os atletas estejam prontos para ouvir. Antes do treino começar, quando alguns deles já só pensam em correr atrás da bola? Fazê-lo no final do treino, quando o cansaço os faz pensar em ir para casa? Durante o treino, aproveitando pequenos intervalos para estabelecer laços? Ou fora do treino, dando uma formalidade maior ao que é dito? Todas as variáveis devem ser tidas em contas e os contextos analisados de forma a perceber o efeito de cada um deles.

Depois temos ainda que avaliar os aspetos como a velocidade do discurso, o seu tom, a diferenciação do timbre e entoação. Um conjunto de palavras monotonamente descarregadas ao mesmo ritmo tem uma influência totalmente diferente do que o mesmo conjunto de palavras conectadas com diferentes entoações, tons e velocidades, sublinhando o treinador os aspetos que pretende destacar em relação a outros.

É fundamental, ainda, que o treinador tenha um perfeito domínio das suas emoções no momento de comunicar com os seus atletas. Um treinador exaltado é, por norma, um treinador que fere os seus jogadores (na sua sensibilidade, na sua capacidade de concentração, no seu espírito de união com a equipa). Controlar as emoções não significa, no entanto, que o treinador deva ser impenetrável. Pelo contrário, a sua genuinidade está na capacidade de entender quando um jogador precisa de uma palavra de conforto ou de uma chamada de atenção, sendo que o acerto de uma e de outra poderá potenciar o rendimento em jogo.

Dentro daquilo que entendo ser a voz do treinador está, também, a sua comunicação não-verbal, aspeto ao qual os atletas tendem a ser muito sensíveis. A expressão facial pode tornar a mensagem mais ou menos credível, tal como os gestos e a forma de posicionar o corpo em relação aos atletas. Por aqui também se pode ainda alimentar uma proximidade, seja colocando-se à altura deles (caso sejam ainda jovens em formação), estabelecendo contacto visual ou, ainda, reforçando a mensagem com um toque que inspire confiança ao atleta.

É por isso que quando falamos da voz do treinador, falamos muito mais de aspetos que tocam, no silêncio, a capacidade do atleta e o seu percurso de superação, do que, propriamente, aquilo que ecoa, enquanto grito, no ambiente do desporto.

 

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