livros de futebolsó passados alguns séculos o homem compreendeu que as promessas podem ser entregues vazias. uma caixa sem nada dentro. ainda assim, dão-lhe o mesmo nome, promessas. enfim, diz o homem para si mesmo, ainda me resta uma caixa. (daqui)

Em 2016, alguns de nós já têm a revolução da análise do futebol por garantida. Já a literatura académica sobre o jogo é larga, já a reflexão de muitos treinadores, escrita ou falada, está disponível para que se entenda cada pormenor do que se passa no campo. Mas basta saírmos do nosso casulo para entender que não será bem assim. Ao nosso lado no café ou na bancada, em muitos dos bancos e balneários por esse mundo fora, na grande maioria dos campos onde o futebol se joga, a revolução é ainda uma palavra virtual. Por isso, é bom que aqueles que se consideram “revolucionários” dêem um passo atrás e se consciencializem do que necessita de ser feito.

A primeira questão será sempre “quando olhas o jogo, o que vês?”. Há que entender que todos nós vemos coisas diferentes. Não se trata sequer da simplista dualidade de olhar a bola ou olhar o campo. Na mesma situação, dois observadores entendem coisas diferentes daquilo que se passa em campo. É que existe sempre um campo infinito de seleção para o entendimento de uma situação que pode ter variáveis de 11 contra 11 até 1 contra 1. Em cada jogada, quantos jogadores vais selecionar para entender o que se passa na tua frente? E que importância dás aos que estão em seu redor, a cinco, dez ou vinte metros? A complexidade do jogo não nos permite ter uma regra para explicar o que são os pontos-de-vista. E aqui começam a separar-se as águas.

Podemos olhar para um jogo em concreto, por exemplo, o Portugal – Islândia, e entender coisas diferentes. Que a equipa portuguesa jogou melhor quando seguiu o seu plano inicial, tentando rasgar linhas adversárias através da posse, ou que os últimos vinte minutos, com mais artistas soltos na frente de ataque, mexendo mais o jogo, foi um período de maior procura da efetividade. Podemos dizer que a Islândia tem um plano básico de jogo, mantendo-se fechada depois de sofrer o primeiro golo, como podemos dizer que jogou tudo na ideia que tem mais preparada e que compreende as características dos seus jogadores.

O que os “revolucionários” terão que entender, ainda que possa não ser esse o seu papel, é que a revolução no futebol se continua a fazer enquanto se mantêm todas as outras probabilidades em aberto e que, em última análise, a importância do caminho é sempre condicionada por um resultado. Em qualquer campo do mundo onde se encontrarem 22 jogadores em disputa haverá sempre quem queira ganhar. E a verdadeira revolução é entender que as muitas maneiras de o fazer podem e devem continuar a ser aceites como, não só possíveis, mas também aceitáveis.

Isto para dizer que pensar o jogo não é só pegar no “estudo do futebol”, aplicar uma “nova linguagem” e entender o que se passa à luz destes “conceitos”. Bem pelo contrário. O jogo é todo o contrário disso. Porque o que a literatura académica nos oferece é uma base de entendimento para aquilo que se foi naturalmente construindo através da prática intensiva da modalidade. Logo, o que está primeiro continua a ser o elemento humano, dentro de uma determinada regra e espaço, com uma bola enquanto essência. E esse é o território que nós temos como sagrado para continuar a entender e a pensar o jogo.

Porque a revolução é uma constante, sendo feita na realidade do terreno. Mas também é uma crença alimentada pela realização, uma e outra vez, da tentativa de subir ao topo sem que o topo nos suba a nós. 

Anúncios