Jovens, talento, formação e desenvolvimento. Palavras mágicas associadas às academias dos clubes profissionais onde o sucesso é medido pelos títulos conquistados. No entanto, pelos resultados dos estudos do Professor Arne Guellich, talvez não estejamos a retirar exatamente aquilo que desejamos da aposta no talento juvenil.

Arne Guellich não encontra correlação entre o sucesso nos escalões jovens e o sucesso nos escalões seniores, na linha do que vem sendo reforçado ao longo de recentes estudos. O trabalho de Guellich vem também sublinhar que a associação entre a identificação de talento em idades muito jovens e a especialização precoce influirá negativamente nas possibilidades de sucesso a nível de topo.

O sucesso do teste não é o sucesso da probabilidade

A cada vez maior sofisticação dos testes de identificação de talento permite um aumentar da percentagem de sucesso do teste. Phillip Ackerman efetuou um cálculo simples: em cada mil atletas, um deles poderá atingir um nível de seleção na idade sénior; juntando-lhe uma escala de efetividade de 70% nos testes realizados, estamos perante uma probabilidade de apenas 0.2% de um atleta positivamente identificado pelo teste conseguir, realmente, atingir o nível de seleção.

As razões do sucesso nos escalões juvenis e o sucesso nos escalões profissionais competem entre si. Segundo os estudos de Guellich, aquilo que garante um maior sucesso nas idades mais precoces (prática específica na modalidade) é exatamente o que limita as possibilidades de sucesso em idade sénior, sendo que os atletas de classe internacional apresentam, de uma forma consistente, práticas em atividades desportivas variadas e não especializadas.

O exemplo alemão

A seleção alemã presente no último Mundial de futebol é um dos exemplos apresentados por Arne Guellich. Apenas 9% dos atletas presentes nesta prova foram identificados em idades Sub-11, sendo que a Seleção A alemã foi sendo construída gradualmente ao longo de todos os escalões etários.

De forma mais específica, o trabalho de Arne Guellich foca a sua atenção nos atletas que representaram seleções alemãs em quatro escalões etários (Sub-16, Sub-17, Sub-18 e Sub-19), contrastando-os com o sucesso atingido no escalão sénior. É de sublinhar que num país que é tido como exemplo de sucesso com a sua aposta na formação, mais de metade dos jovens jogadores que atuaram nestas seleções jovens nunca chegaram a atingir o nível de 1ª ou 2ª Divisão, sendo que, dos atletas que representaram a seleção de Sub-16, apenas 15% atingiu a Bundesliga.

Um exemplo português – a época 2006/07

Os números apresentados por Arne Guellich podem ter paralelo no futebol português. Olhando para as competições de há dez anos atrás, 2006/07 (para atingirmos um ponto de análise em que todos os incluídos já atingiram os 24 anos, tal como no estudo referido), procurámos nos plantéis campeões jogadores que tenham atingido nível internacional.

O FC Porto foi campeão nacional de iniciados com um plantel de onde apenas Sérgio Oliveira chegou à equipa principal. Do Sporting campeão nacional de juvenis saíram Cédric Soares e André Martins, para uma utilização regular a nível sénior na equipa dos leões, mas também jogadores como Pedro Mendes, Mário Rui, André Sousa, Wilson Eduardo ou Diogo Amado. Do FC Porto campeão nacional de juniores, Ukra, André Pinto, Candeias e Tengarrinha serão os casos de maior sucesso, mas nenhum pode ser considerado um jogador de seleção. Da seleção nacional de Sub-19 que participou, no final dessa temporada, no Europeu do escalão, Hugo Ventura, Tiago Pinto, Daniel Carriço, André Castro, Orlando Sá, Candeias e Ukra são os nomes mais destacados.

De todos estes jogadores, apenas Cédric Soares alcançou um nível que lhe permite uma utilização regular na Seleção AA portuguesa.

Ganhar é cultural

Estes estudos parecem indicar que a maior conquista que se retira da aposta na formação é cultural. Um jogador de sucesso no nível máximo pode entrar no sistema nos diferentes escalões de formação, mas a lógica de vitória inserida numa identidade que é trabalhada desde a base é necessária para se conseguir alcançar o maior proveito possível com esse sucesso.

Estar inserido num clube ou numa seleção com cultura vencedora, onde os hábitos de disputa de títulos estão inculcados, permitem retirar mais proveito do que assistir a esse sucesso apenas baseado no atleta individual.

Não deixa de ser curioso que Portugal seja campeão europeu em 2016 com uma seleção que tem, como média de idades, os 28 anos. Ou seja, apontando para as proximidades do ano em que Carlos Queiroz entrou para os quadros da FPF, momento que marca o início de um sucesso consistente das seleções portuguesas a nível internacional, iniciado nas competições de formação a nível europeu, depois a nível mundial e, finalmente, com a presença da seleção portuguesa em quase todas as grandes competições internacionais desde o ano 2000.

Nota: o estudo utilizado para a execução deste artigo pode ser lido no link:

Guellich, Arne, Talent Identification and Talent Development Programmes – with particular regard to Soccer.

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