Por ocasião do lançamento do livro A Pirâmide Invertida em versão portuguesa, o jornalista Jonathan Wilson deu uma entrevista onde, entre outros assuntos, explora aquilo que foi conseguido por Pep Guardiola e as consequências daquilo que alcançou. Um dos pontos mais interessantes da entrevista é o reconhecimento de que o estilo do Barcelona de Guardiola veio provocar um aumento da qualidade da proposta daqueles que optam por correntes opostas.

Ou seja, em 25, 26 anos assistindo futebol, aquele Barcelona é o melhor time que eu vi jogar. Foi também a primeira vez em que assisti uma equipe executando um estilo que era completamente inédito. Claro que não é só tática, existem as circunstâncias de se ter jogadores que cresceram juntos, em uma filosofia de clube como a do Barcelona. Então é complicado chamar de uma revolução, porque são fatores difíceis de emular.

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Foi bem-sucedido no Bayern e acredito que terá sucesso, eventualmente, no Manchester City. Mas não é a mesma coisa do que quando ele era novo e, de repente, os adversários não sabiam lidar com aquilo. É assim que acontece a evolução. Não é que o estilo Guardiola tenha morrido, é que as pessoas encontraram uma maneira de enfrentá-lo que funciona. Então, em vez de um só estilo, há dois. E isso é ótimo.

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Agora, as pessoas estão começando a entender que podem enfrentar esse modelo. Vimos naquela semifinal da Liga dos Campeões de 2013, já com o Tito Vilanova como técnico, em que o Barcelona foi derrotado por um Bayern de Munique que jogava sem tanta posse de bola e nos contra-ataques. E o modelo daquele Bayern é uma evolução forçada pelo Barcelona de Guardiola, uma forma de enfrentá-lo. É a corrente oposta e, ao mesmo tempo, um resultado daquele Barça. Daí se vê o peso: o time não inspirou apenas imitações, mas também opositores.

Jonathan Wilson

É exatamente por reconhecer este efeito na análise da criatividade, a sua potencialidade para ensinar os seus opositores a construírem os seus modelos a partir de novos desafios, que creio num futebol que se mantém imune ao pensamento único. Tratando-se de um jogo, de uma competição, não podemos ambicionar a que todos as equipas joguem igual, mas sim, e isso é o mínimo que se pede a quem alcança o nível do alto rendimento, que preparem as suas armas da forma mais inteligente possível para esse confronto.

Porque da mesma maneira que o paradigma de Guardiola foi construído para enfrentar o futebol que existia naquele momento histórico, a alteração do modelo que fica mais perto de ganhar gerou novas reações, numa evolução contínua. O jogo, esse, não regride. Historicamente, é uma constante de propostas e respostas que o levam a ser mais complexo, mais rico, mais especial. Com a aleatoriedade a fornecer-lhe o “toque de Midas” que o mantém como o menos previsível de todos os desportos.

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