“Estás preparado para aquilo que podes nunca vir a ser?” Eis uma pergunta que cada adulto que tem, ao seu cuidado, um jovem praticante de desporto deveria colocar, para si mesmo, antes de começar a construir expetativas que não são baseadas em princípios sólidos, nem observações cuidadas. Ao longo das últimas semanas tenho acompanhado um caso preocupante de um pai que pretende transformar o seu filho num novo Messi (com certeza conhecerão, bem perto de vocês, casos bem semelhantes). A gestão das expetativas é uma das situações mais complexas de que se podem falar na criação de uma caminhada até ao alto rendimento.

Quando tens 20 anos e lês que não tens personalidade ou nível para jogar no Barcelona, isso dói.

Xavi

Em entrevista dada ao jornal O Jogo, nesta terça-feira, Xavi Hernández revela aquilo que sentia quando lia algo sobre si, nos jornais, quando estava a começar a sua carreira na equipa principal do Barcelona. Tendemos a olhar para os atletas como heróis dedicados à sua prática, talentos imbatíveis bafejados por uma espécie de dom que os torna imunes a tudo o resto que acontece no mundo. E, no entanto, com grandes promessas surgem, também, enormes inseguranças.

Nada te prepara para este mundo, para jogar frente a 50.000 pessoas e não te deixares cair se te insultam, nem tirar os pés do chão quando te aplaudem.

Ariel Rojas

O experiente jogador argentino do River Plate, em entrevista ao suplemento El Enganche, revela que começou bem cedo a fazer terapia psicológica e que essa continua a ser uma das grandes lacunas dos jogadores profissionais. A preparação da mente do atleta vai bem para lá daquilo que é o seu rendimento objetivo na modalidade que pratica. Ao mesmo tempo que estamos a formar um jogador, é fundamental que esse jogador tenha em si um homem com capacidade para tomar decisões, para enfrentar dilemas, para saber pensar e escolher aquilo que pretende para si, dentro e fora de campo.

Já não guardo como uma má recordação essa lesão grava (rotura de ligamentos num joelho), até porque serviu para me cuidar mais e melhor. Tinha 25 anos e até aí eu praticamente nunca tinha passado por um ginásio porque, como sou um jogador de técnica e passe, achava que não tinha necessidade de fazer trabalho extra. Sentia que era uma perda de tempo ir para um ginásio. Então percebi que se não tens força suficiente nos músculos, os joelhos e os tornozelos vão ressentir-se.

Xavi

Estamos todos expostos a um desejo inequívoco de certezas. Seja através da educação, da religião, da cultura que nos pretendem impor como nossa, desde muito cedo, a exposição do ser humano a uma certeza e a uma verdade únicas é, para mim, um dos grandes mistérios do mundo. Enquanto aqueles que mais se dedicam à investigação e ao conhecimento revelam como o crescimento pessoal se faz através da dúvida, o mundo dos métodos, da finança e da economia mascara-se para nos revelar uma unicidade de pensamento que não aceita a discussão ou a diversidade.

E, no entanto, quando voltamos ao básico, quando enfrentamos os caminhos percorridos por aqueles que atingem os mais altos palcos de sucesso, aquilo que encontramos é trabalho, capacidade de duvidar das suas ações, força para reverter situações de negatividade, mais trabalho. Aquilo que encontramos é essa enorme capacidade de gerir, dentro de si, a resposta às expetativas que não nasceram da sua própria exigência, recentrando-se perante elas.

Hoje, o normal é pedir aos jogadores que corram e demonstrem atitude, como se essa fosse a solução para resolver o problema de estar a perder.

Kevin Konfederak

“Estás, então, preparado para aquilo que podes nunca vir a ser?”. Enquanto os jovens praticantes desportivos procuram o prazer na sua atividade, aquilo que lhes chega ao ouvidos são promessas e cobranças de quem se recusa a entender o mundo onde o sucesso desportivo se faz. Um jovem mais preparado para a vida, em todas as suas dimensões, será um homem mais preparado para ser um bom jogador, na modalidade em que encontrar espaço para a demonstração das suas características. Um atleta e um treinador mais abertos para tudo aquilo que a evolução do conhecimento e da tecnologia nos proporciona, terá maior capacidade para se colocar em causa e, a partir daí, vantagem na forma como encontrará novas respostas. Alguém que consiga gerir as suas expetativas, não quebrará perante o insulto, nem voará perante o aplauso. Conhecerá o seu espaço e o seu caminho. Será o dono do si mesmo.

 

Referências: 

Entrevista a Xavi Hernández publicada no jornal O Jogo de 2/01/2018.

Entrevista a Ariel Rojas publicada no El Enganche de 30/12/2017.

Artigo citado de Kevin Konfederac na The Tactical Room nº 37. 

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