Acerca do artigo “O cérebro precisa de amigos; o jogo e os números“, recebi o seguinte comentário, com duas perguntas às quais tento responder neste artigo.

Não estou certo de ter compreendido tudo, mas é “matéria proseável”, como diria o Guimarães Rosa, isto é, demasiado interessante e merecedora de aprofundamento.

Segundo percebi, considera que se podem matematizar padrões, que poderão servir de matriz a desenhos tácticos ou, mais correctamente, o tratamento estatístico oferece posicionamentos preferenciais de certas posições. Existe também uma correlação entre os desenhos tácticos mais sofisticados e as matrizes estatísticas.

Se assim é, duas questões:

1ª- Incorrendo no velho aforismo do “ovo e da galinha”, se os treinadores mais sofisticados (nomeadamente Guardiola, explicitamente mencionado) já ensaiam tácticas comprovadas ulteriormente pela estatística, qual a utilidade da estatística? Reforçar convicções? Validar posições ideológicas? Se uma vem antes da outra e esta última nada acrescenta (porque nada traz de novo), dever-se-á partir, inversamente, de um modelo estatístico que enforme o desenho táctico?

2ª- Nesta sequência, uma vez mais, não dependerá sempre, em última análise, dos desejos tácticos do treinador? O treinador optimiza o seu modelo de pendor mais ofensivo ou mais defensivo porque lhe parece, alternadamente, ter mais condições de sucesso em função de uma série de factores, como o sejam o plantel disponível, as competições em causa, as ambições do clube… e as suas próprias ideias. Concretizando… Simeone olhará uma matriz estatística de uma equipa sua e confirmará as suas suposições. Guardiola fará o mesmo e confirmá-las-á na mesma. Em que pode a estatística ajudar? Como pode ela, espelhando parcialmente a complexidade de um modelo futebolístico, acomodar a aleatoriedade intrínseca do jogo e a variabilidade de condicionalismos que sucessivamente surgem?

Peço desculpa pelo longo comentário. O texto é extremamente interessante e, se for possível e houver paciência para tanto, gostaria de ler um bocadinho mais do autor a este respeito.

Gonçalo Matos Ramos

Tentando responder, parece-me muito interessante trazer à discussão o aforismo do “ovo e da galinha”. Na verdade, apesar de ser uma questão que parece encerrar séculos de pensamento humano à procura de uma resposta impossível, quer nos inclinemos para considerar que existiu primeiro o ovo ou primeiro a galinha, continua a parecer-nos imprescindível que ovos e galinhas andem juntos. Em alguns casos, é uma galinha a ferramenta que nos proporciona deliciosos ovos, noutros, é o ovo que nos traz deliciosas galinhas. Assim, também, com a estatística. Um dia gostaria de entrevistar o Pep Guardiola para entender, no seu caso, quem chegou primeiro, a consciência matemática ou a ideia de jogo que é explicada por esta. Mas vários outros mestres antes dele parecem indicar que uma intuição profundamente apurada (pensemos em, por exemplo, Helenio Herrera), se assemelha bastante à tomada de consciência referida. Ou seja, existem determinados técnicos que nos levariam a comprovar que, o que realmente importa para diferenciar um treinador, é a sua intuição. Nesse mundo, ignoraríamos as diatribes de quem considera que existe uma especificidade futebolística, que os jogadores fazem melhores treinadores, que ter pertencido ao mundo do futebol, ter andado lá dentro, é que importa, em detrimento de um “ter intuição é que o vale”. Talvez esse mundo nos demonstre quem são os técnicos que, de uma ou outra forma preponderante, influenciaram os destinos do jogo (Rinus Michels, Valery Lobanovskiy, Brian Clough, Alex Ferguson, Johan Cruyff, Arrigo Sacchi, José Mourinho, Pep Guardiola, Marcelo Bielsa, Maurizio Sarri eram/são, todos eles, senhores de uma profunda intuição e conhecimento sobre o futebol). Muito provavelmente, todos eles, lhe diriam o mesmo: quando eu sinto que sei tudo, o único caminho que tenho é saber mais. Dessa forma, não verá nenhum grande sábio desdenhar a utilização de uma ferramenta que lhe possa acrescentar uma, por pequena que seja, vantagem sobre os rivais: seja porque conjuga mais informação, mais depressa ou, simplesmente, porque ajuda a questionar este ou aquele aspeto do jogo que lhes havia escapado.

Uma nota, aqui, para explicar que, como é fácil de entender, nem só de génios vive o mundo. Para lá desses grandes nomes, muitos outros treinadores fazem, com sucesso, longas carreiras a diferentes níveis competitivos. Para todos eles, essa ferramenta de análise se tornará, talvez não tão interessante na sua complexidade, mas bastante útil na forma como os ajudará no seu trabalho diário.

Continuando, então, para a segunda questão. Para mim não existe a mínima dúvida de que o trabalho de recolha estatística está dependente do modelo de jogo do treinador e, por isso mesmo, defendo como certo aquilo que muitas equipas já fazem, criando os seus próprios modelos de análise estatística, muitas das vezes com sistemas de recolha próprio. Conforme aquilo que cada treinador, em cada equipa, considere mais importante conhecer no jogo, devem os modelos de análise adaptar-se para o procurar. Equipas de diferentes níveis têm diferentes necessidades, e o que a estatística, aí, fará, não é confirmar as ideias de cada treinador, mas posicionar-se como uma ferramenta que aumenta o impacto dessas mesmas ideias. A estatística não existe para explicar o jogo, nem adivinhar resultados. A estatística existe para ajudar a descrever, da melhor forma possível, “a complexidade de um modelo futebolístico”, procurando antecipar os “condicionalismos que sucessivamente surgem”, nessa aleatoriedade que, no mundo do Big Data, parece cada vez mais acessível a uma padronização.

Diria, então, que se um treinador procura, na linguagem matemática, apenas confirmar as suas ideias, está a limitar um campo de ação que aponta, exatamente, para um aprofundar da complexidade dessas mesmas ideias. O que se pretende é exatamente o contrário. Deixar de acreditar em impossíveis, encontrando uma linguagem que explique, de forma mais concreta, aquilo que existe.

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