Prática, dúvida, consciência e contexto – contra a repetição, a perfeição e as más sínteses. Os novos dados sobre a prática deliberada e o atingir da mestria numa determinada área, a impossibilidade da perfeição no futebol e a ignorância histórica de quem tenta resumir de forma forçada o contexto do jogo confrontam-se no entendimento de que uma abertura da mente à contaminação do conhecimento entre as diferentes áreas de especialidade é o melhor caminho para se alcançar sucesso na competição.

Não é uma questão de tempo, é uma questão de adaptação

Se já ouviram ou leram, e tenho a certeza que sim, que para se ser especialista numa determinada área são necessárias 10.000 horas de prática deliberada, pensem bem na informação que estão a receber. A contestada tese é refutada pelo próprio autor, Anders Ericsson, que viu o seu trabalho ser mal interpretado e divulgada uma necessidade de base que ele não encontra nos seus resultados.

O Malcolm Gladwell leu o nosso trabalho e interpretou mal algumas das descobertas realizadas. […] Eu argumentaria que o principal dado que as pessoas interpretaram mal é que não se trata apenas de acumular horas. Se está a realizar um trabalho e se está apenas a fazê-lo da mesma forma uma e outra vez, não está propriamente a evoluir. Há muita pesquisa que comprova isso mesmo.

Anders Ericsson (1)

Treina muito, treina mais. Trabalha, trabalha, trabalha. Estamos sempre a inculcar estas ideias na mente daqueles que queremos ver ser melhores. A ideia das 10.000 horas de prática para se atingir a perícia numa determinada área serviu para muitos desses que acreditam cegamente no valor da dedicação total apresentarem mais um argumento para forçar a mais treino, mais horas de trabalho.

E, no entanto, a ciência não comprova esta ideia. A repetição, por si só, não permite uma evolução no que toca ao aperfeiçoamento ou entendimento de uma ação, nem a mestria implica que um atleta não possa, ainda, evoluir no seu conhecimento e na sua capacidade de entender aquilo que faz.

Aquilo a que ele chama prática “deliberada” envolve a orientação de um especialista que critique a forma como se está a progredir, para que se possa praticar melhorando de uma forma que vise o nosso progresso. Uma jogadora de golfe pode obter um conselho localizado sobre como melhorar exatamente o seu swing, o mesmo acontecerá com a orientação de um cirurgião por parte de cirurgiões mais experimentados acerca de como melhorar a sua técnica clínica. E, depois de a jogadora de golfe e o cirurgião terem praticado esses aperfeiçoamentos até ao ponto da mestria, os outros dar-lhes-ão mais conselhos sobre a sua próxima série de avanços. É por isto que tantos profissionais – nos desportos, no teatro, no xadrez, na música e em tantos domínios da vida – continuam a ter quem os oriente ao longo das suas carreiras. Por muito bons que sejam, poderão sempre melhorar um pouco.

Daniel Goleman e Richard J. Davidson (2)

O caminho para a mestria não se faz sozinho, nem se faz por inspiração. A ideia de uma perfeição que é resultado de uma construção onde se vai acrescentar, tijolo a tijolo, mais um andar ao edifício, também não colhe no teste da realidade. Porque as alterações constantes de contexto quando se vive no mundo do alto rendimento, levam a que o conhecimento e a perícia não sejam apenas um caminho de acumulação, mas sobretudo um caminho de adaptação.

Não é o que se fez, mas o como se faz

Ser-se um treinador de topo no futebol implica uma constante revisão dos conceitos, uma melhoria e um aperfeiçoamento das técnicas de trabalho e um questionamento constante daquilo que se realiza e se pode obter. Tudo isto num quadro em que a inovação não se faz, exatamente, a nível individual, mas sobretudo no entendimento de práticas globais que coexistem em diferentes modalidades coletivas e se tocam umas às outras.

Como repito muitas vezes para mim, se achas que estás a fazer uma grande descoberta, talvez não tenhas ainda o profundo conhecimento que o mundo te pode dar. Quando Jorge Jesus se arvora como um inovador, esquece-se que o mundo de hoje não se faz apenas daquilo que podemos ver na televisão, ignorando também como o espectro de contaminação entre modalidades coletivas que sempre existiu. Não era, sequer, necessário, sair do reconhecimento da história do futebol em Portugal.

Otto Glória começou como jogador de futebol e passou pelo Vasco da Gama, Botafogo e Olaria. Aos 25 anos de idade decidiu encerrar sua breve passagem pelos gramados.
Partiu então para o basquetebol, primeiramente como jogador e depois como treinador. No esporte da “cestinha”, Otto Glória adquiriu e aprofundou seus conhecimentos sobre estratégias e táticas de jogo.
Estudioso, Otto Glória adaptou muitos fundamentos do basquete no futebol, como posse de bola, triangulações, marcação por zona, aproveitamento dos rebotes defensivos e ofensivos e, principalmente, o sentido coletivo na cobertura.

excerto do artigo “Otto Glória… basquete, futebol e omeletes” (3)

Regressemos, então, à questão do entendimento da prática que se realiza. Ao caminho de constante colocação em dúvida daquilo que se faz. Não uma dúvida que castra, que anula as potencialidades do nosso trabalho, mas uma dúvida que alimenta a superação dos problemas. O acumular de horas de treino e trabalho pode ser superado se, no momento competitivo, temos pela frente quem, com menos horas, tenha apresentado um melhor aproveitamento das mesmas para o objetivo concreto desse confronto.

No livro Traços Alterados, defende-se que em determinadas áreas, 200 horas de prática foram suficientes para se atingir a mestria. Num contexto, como o futebol, em que a realidade estratégica do jogo e a capacidade tática dos jogadores estão em constante mutação, a perfeição é algo que não existe. Pode-se vislumbrar, é certo, mas não se pode sintetizar numa imagem ou numa frase que faça um bom título de um artigo.

 

Notas

(1)Entrevista a Anders Ericsson no Knowledge@Wharton
(2)Daniel Goleman e Richard J. Davidson, Traços Alterados, 2018, Ed. Temas & Debates
(3)Blog Tardes do Pacaembu

Anúncios