A cada dia, a cada hora, em canais de televisão, rádio, jornais ou redes sociais, alguém se levanta da cadeira para dizer quão mal está o futebol. Tornou-se quase uma expressão que separa as pessoas de bem das outras, considerar o futebol a origem de todos os males. Ao que parece, é isso que ajuda muitas dessas pessoas a dormir bem à noite, o cercar do mal numa origem só, não se atrevendo a pensar determinados fenómenos para lá das suas evidências.

Essa expressão foi ganhando o seu espaço num discurso que separava águas: o futebol, como produto de uma expressão pobre de uma cultura popular, sempre foi território de semi-liberdade para umas quantas atitudes que não se enquadravam numa visão mais nobre do viver-se em sociedade. Inculcou-se de tal forma na mente de todos que, a determinado momento, são as próprias pessoas que trabalham, que se envolvem e que fazem parte das grandes massas associadas a este desporto que adotaram este discurso. Quando uma boa parte das citações retiradas de páginas de jornais, numa semana em que houve jornada de campeonato e uma festa de celebração dos melhores do jogo, na Gala Quinas de Ouro 2018, organizada pela Federação Portuguesa de Futebol, se referem ao futebol como um espaço de maldade, a reversão da realidade parece ter atingido os seus intuitos.

Experiências sociais para totós

O futebol, que começou por ser uma modalidade praticada por estudantes de alta sociedade, não foi impunemente conquistado pelas massas populares. Quando as primeiras equipas começaram a aceitar “homens rudes” para os seus onzes, não o fez por crença na participação democrática e na convivência entre classes sociais, mas fê-lo por acreditar que a destreza e o poderio físico dos jovens que trabalhavam lhes ofereceria uma vantagem competitiva.

O facto do desporto se ter tornado num território de experiência social, onde elementos de todas as origens, consoante as suas capacidades físicas para a prática do jogo, se podiam tornar figuras e participar em igualdade de condições com todos os outros, pode ter sido um deslize que a história ofereceu como exemplo à nossa sociedade. E se, estando na Europa ou na América do Sul, o futebol é o melhor exemplo disso mesmo, noutros locais ter-se-á apropriado de outras expressões, como o Futebol Americano e o Basebol na América do Norte, ou como o Cricket na Ásia e na Oceânia.

A história demonstra-nos que esta ideia de democracia e livre acesso criou, sempre, elevadas tensões em redor do fenómeno desportivo. Se, por um lado, as origens da profissionalização do jogo liberalizaram totalmente a possibilidade de todos poderem ser jogadores de futebol, por outro, a necessidade de criação de um mercado levou à adequação do comportamento durante o jogo à uma realidade social que era bem mais dura do que as páginas cor-de-rosa podiam comportar.

É por isso que, um pouco por tudo o mundo, seja qual for a nossa experiência, associamos parte da nossa educação como assistentes do fenómeno desportivo a um momento de expressão de sentimentos básicos, onde os senhores da vila estavam à vontade para gritar impropérios perante a eventual farsa criada pelos árbitros (o que seria condenável num teatro ou no café), deliberadamente acentuando uma face tribal que a sociedade do século XX ia apagando de todas as restantes manifestações.

Deitar fora o bebé com a água do banho

Regressando, rapidamente, ao presente. No que toca a experiência social, o fenómeno desportivo continua a ser terreno de uma intensa luta entre tendências. Se no terreno de jogo, a origem social dos atletas apresenta uma larga maioria de homens e mulheres que encontram na prática desportiva uma possibilidade de melhorar as condições de vida do seu entorno, o quadro de exploração é manifestamente evidente deste o início da formação dos atletas, tendo em conta as provas a que são expostas e a efemeridade do seu percurso, fora do terreno de jogo a realidade é bastante diferente.

Os quadros dirigentes dos clubes não receberam, nunca, essa contaminação de classes, mantendo-se a necessidade de se ser um “homem de sucesso” (diga-se, financeiro) para se conseguir subir à direção. Essa diferenciação entre quem “manda” e quem “executa” continua a criar enormes tensões no que toca à forma como cada um tem acesso à palavra e à representação das entidades a que estão associados. Da mesma forma, o mercado criado em volta do fenómeno desportivo, torna-o um produto aliciante e cria barreiras ao seu acesso, da mesma forma que pretende chegar a um cada vez maior número de público através de linhas criadas por interesses económicos.

O elevado preço dos bilhetes para ver jogos em estádios que, tantas vezes, têm as bancadas vazias. O condicionar do acesso à informação criando canais de televisão pagos para a transmissão dos jogos. O elevadíssimo preço de material oficial de apoio às equipas (como as réplicas das camisolas, por exemplo) em comparação com o preço de produção do mesmo. Na maior parte dos discursos, isto não parece preocupar quem analisa o fenómeno. No entanto, são estas realidades que condicionam a um comportamento cada vez mais tribal, em manifestações de bando, para aceder à possibilidade de acompanhar as equipas, ver os jogos e fazer-se igual a todos os que podem, pelos seus meios, comprar esses materiais.

As tensões criadas por este fenómeno que é, essencialmente, um problema da nossa sociedade e um problema de enquadramento económico das manifestações de massas e desportivas, leva à necessidade de um acentuar de vozes de comando, de forma a não permitir a dispersão do foco dos seus “clientes”, a nova denominação dos adeptos na novilíngua das sociedades desportivas. Já não chega fazer com que as pessoas acreditem que é necessário pagar preços elevados para ir ao estádio apoiar a sua equipa, pagar o acesso à informação (que em muitos casos geram boa parte dos lucros dos clubes através dos negócios das vendas de direitos de transmissão), pagar para pertencer à massa daqueles que “podem falar”, também é necessário que esse discurso seja controlado e normatizado pelas classes dirigentes.

Por isso, como em qualquer ambiente de guerra, se estabelecem trincheiras, se atacam parceiros, se desenham estratégias e táticas que visam, acima de tudo, dominar o próprio espaço de combate. Não estamos a falar de ganhar um jogo ou ganhar uma competição. Isso, nos nossos dias, passou a ser um interesse secundário de muitas sociedades desportivas. Trata-se de ganhar financiamento, manipulando os seus seguidores para um comportamento que lhes permita aumentar o seu valor perante as fontes do dinheiro.

A alfabetização do consumo futebolístico

Por isso creio que é tão importante saber diferenciar os públicos e a linha de interesse daqueles que estão, nos dias de hoje, à volta do fenómeno futebolístico. Não acredito em ninguém que fale dos problemas do “futebol” sem estar a referir-se, essencialmente, ao jogo. A um jogo que, pela evolução técnica, tecnológica, física e de conhecimento humano, se tornou cada vez mais uma expressão de humanidade, de descoberta e superação dos limites dos seus praticantes. Esse jogo que continua a interessar a muitos que, na sua maioria, se vêem obrigados a resguardar-se como nicho que são, num mundo bastante agressivo e destruidor.

Acreditarei a quem me fale de problemas da nossa sociedade que surgem, por estes dias, associados a fenómenos desportivos (que pode ser futebol, na maioria dos casos, como pode afetar qualquer outra modalidade, em qualquer dia que seja, se isso fizer parte da narrativa de construção de valor dos clubes envolvidos – e, por isso, não se deixem enganar com a exclusividade do fenómeno). Problemas que passam pelas dificuldades de monetização de um fenómeno que assenta em públicos muito alargados, mas, ainda assim, numa especulação do seu próprio valor. Problemas que passam pela necessidade de encerramento em discursos tribais daqueles que procuram posicionar-se na sociedade, em detrimento de um entendimento global, livre e democrático da participação. Problemas que se prendem com o clima violento que se cria pela não resolução de tensões classistas, financeiras, económicas, de acesso e controlo dos fenómenos de massas, que nada têm a ver com o desporto, mas sempre encontraram no desporto um espaço bom para florescer, quais ervas daninhas.

É, por isso, necessário que se continue o esforço por educar e alfabetizar aqueles que consomem desporto. Porque a criação de um produto não deve chocar com as mais-valias que se podem continuar a retirar, em termos sociais e culturais, dos fenómenos desportivos. Podem culpar o futebol, se isso vos ajuda a dormir bem à noite. Mas estarão apenas a adiar a solução, ignorando boa parte do problema.

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