Nunca como nos nossos dias houve a possibilidade de ver tantos jogos, comparar tanto as equipas, analisá-las ao pormenor. Uma das consequências desse facto é a forma como vamos desvalorizando aquilo que acontece em cada jogo, sempre a exigir mais e melhor. O amor ao jogo transforma-se, assim, em violência na análise.

O Manchester City torna todas as restantes equipas da Premier League más. No entanto, perde com o Liverpool e Pep Guardiola é um falhado. O Liverpool marca cinco golo ao Roma, o que deverá significar que a defesa dos romanos não presta, da mesma forma que alguns jogos em branco de Cristiano Ronaldo o transformam em logro. Não marcou, não ganhou, não é bom.

Vivemos nesta roda vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Porque os satélites e a internet nos permitem ver todos os jogos possíveis. O jogo mais importante e o jogo com menos interesse competitivo para cada conjunto. A exigência de entretenimento é máxima. Queremos que as melhores equipas sejam sempre as melhores, mesmo quando jogam contra equipas igualmente muito boas. Tendemos a ignorar o contexto da competição para declarar, enfaticamente, que o que era mau agora é bom e que aquilo que era bom, agora, não presta para nada.

No meio desta exigência, o amor ao jogo desapareceu. Os bons jogadores só o são quando fazem mais de sessenta jogos como tal numa só temporada. As grandes equipas nunca empatam ou perdem jogos. Todas as relvas são más, todas as decisões do árbitro são criticáveis, tudo poderia ser sempre de uma outra maneira. Culpam-se treinadores, jogadores, processos, como se cada uma dessas coisas vivesse em isolamento de todas as outras.

A era da violência

A era da violência caracteriza-se pela vontade expressa em ignorar a dimensão humana do jogo, mesmo por aqueles que o defendem como expressão máxima do humano. A ideia de infalibilidade está presente nesse tipo de análises que acabam por perseguir resultados impossíveis de observar.

Persegue-se na análise do pormenor à produção de sentenças para cada um dos jogos disputados. E, no entanto, a qualidade de uma equipa não pode nunca ser medida por um jogo isolado. Precisamos de olhar para períodos mais largos, onde os contextos competitivos, os processos de treino e de jogo e a resposta individual de cada jogador possam ser pesados.

O que a era da violência tende a negar é a possibilidade de as ideias se formarem através de processos materialistas, construindo-se através da sua exposição a diferentes experiências e não como ditadura de uma mente solitária. Tudo é processo, no jogo atual, porque tudo é trabalhado para períodos alargados (uma ou mais temporadas), para respostas variadas (diferentes competições), exposto aos altos e baixos que o elemento competitivo (e os seus pontos corridos ou eliminatórias) propõem.

No fundo, para quem analisa o jogo, tem que haver um meio-termo que nos permita entender que o acesso a todas as ferramentas não nos torna escravos da melhor resposta tecnológica, apenas nos empodera na compreensão na dimensão humana do jogo e nas inevitabilidades da inconstância. O meio-termo mais difícil de alcançar, no jogo, como na vida, onde as certezas parecem ser a única resposta aceitável.

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