Durou pouco tempo a experiência de Miguel Cardoso em Nantes. Depois de um ano de estreia como treinador principal em alta, num Rio Ave que encantou pelo estilo e pelo apuramento para a Liga Europa, o desafio que o técnico português encontrou em França não lhe permitiu continuidade. Vários factores contribuíram para uma experiência falhada.

É o Nantes de Waldemar Kita. Dono do clube desde agosto de 2007, com Miguel Cardoso a ser o 14º técnico a passar pelos canários. A sua ambição eleva-se ao mesmo nível que a sua pouca capacidade de gestão. Sempre a desejar que o Nantes volte aos momentos altos do passado, ganhando títulos e participando nas competições europeias, Kita tem sido sempre uma fonte de instabilidade. Michel Der Zakarian, figura do clube, foi o único técnico a ter uma longa passagem pelo Nantes de Kita, em dois momentos distintos. De resto, nenhum outro técnico tem ali sobrevivido mais do que uma temporada.

A chegada de Sérgio Conceição, em dezembro de 2016, marcou a diferença no perfil de técnicos escolhidos pela administração, com a aposta a recair em treinadores estrangeiros que pudessem impor um novo estilo de comando. Aliás, foi reconhecido, à época, que o presidente do Nantes procurou ativamente técnicos de nacionalidade portuguesa para implementar essa mudança. A chegada de Sérgio Conceição marcou a diferença também no estilo de jogo, algo que foi tentado mantes com a chegada de Claudio Ranieri, de forma algo dispersa, tendo em conta a diferença de atitude de treinadores.

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Com Miguel Cardoso, no entanto, Waldemar Kita procurava o melhor de dois mundos: o estilo de liderança do português, um refinamento do seu jogo para aproximar a uma ideia de futebol romântico muito cara aos adeptos do Nantes, o reconhecimento que o técnico conquistava depois da temporada no Rio Ave. No entanto, a influência que Sérgio Conceição e Claudio Ranieiri transportavam com os seus currículos não encontravam par em Miguel Cardoso e esse pode ter sido um dos primeiros elementos a levar ao falhar desta sua experiência.

Outro dos elementos que falhou foi uma política imposta por Claudio Ranieiri quando ao staff técnico. A chegada de Sérgio Conceição havia terminado com o tempo de Bruno Baronchelli como adjunto (foi-o entre 2011 e 2016). O atual treinador do FC Porto tinha no seu grupo, no entanto, Siranama Dembélé, que é francês. A equipa técnica de Ranieiri era exclusivamente italiana, da mesma forma que a de Miguel Cardoso era exclusivamente portuguesa. Poderá ter sido um dos factores a impedir a criação de uma ponte entre treinador e os jogadores mais experientes do clube.

Desde muito cedo essa diferenças foram sendo transmitidas para fora do grupo, através da comunicação social local, levantando desconfianças. A opção de Miguel Cardoso pelo lançamento de jogadores mais jovens acabou por permitir a realização de um trabalho positivo, mas a chegada de reforços não parece ter sido suficiente forte para criar um impacto positivo no crescer da equipa. É bom relembrar, inclusive, o jogo da primeira jornada, quando o Nantes dominou toda a primeira parte, para acabar derrotado por 1-3. O não aparecer de resultados acabou por pesar sobre um técnico que se encontrou num contexto de grande fragilidade, por opções próprias e pela própria forma de gestão do clube.

Sai, curiosamente, depois de um empate no terreno do Lyon, equipa sensação destas últimas semanas em França. A sua imagem poderá ficar levemente marcada por esta má experiência, mas o que é fundamental é que Miguel Cardoso tenha retirado deste momento os ensinamentos necessários para o próximo passo. A qualidade do seu trabalho de campo, pelo que está visto nas suas experiências anteriores, merece novas oportunidades de sucesso.

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