O exponencial aumento da análise de futebol com base online, através de sites ou perfis de redes sociais, permite-nos hoje ter um acesso muito mais diversificado ao que se faz no jogo.

No entanto, parte dessa análise sofre de um mal que se poderia chamar de “treinadorismo”, uma espécie de doença infantil de quem se propõe a analisar substituindo-se ao treinador.

Para os “treinadoristas”, as equipas vivem numa escala de valor que mede a aproximação à sua ideia de jogo. Quantos mais itens do seu próprio plano de jogo cumprirem, melhor cotadas serão.

A essa luz, aquilo que o “treinadorista” pretende é uma purificação do estado do jogo, acreditando que existe uma maneira melhor de jogar, de tomar decisões, de resolver as incidências contextuais de cada partida.

Mesmo sem acesso aos treinos, à análise interna de cada equipa ou aos planos da mesma para cada jogo, o “treinadorista” sabe sempre o que seria melhor, porque há um estado superior do jogo que ele acredita que todos devem alcançar.

Uma das consequências do “treinadorismo” é a tendência para a avaliação do jogador fora do seu contexto. Uma esperança de encontrar num determinado jogador a solução para os problemas da equipa que observa.

Isso leva a leituras irrealistas de integração de determinados jogadores em plantéis. Porque, numa equipa, o pré-existente plantel e treinador se sobrepõem, de forma dialética, às características um atleta individual.

Sendo que as qualidades de um jogador podem ser parte da solução, a crença na capacidade salvador desse mesmo jogador acaba, muitas vezes, por ser parte do problema.

Finalmente, no “treinadorismo”, a escala de valor que mede a aproximação à sua ideia de jogo tende a ser irredutível. O que, pelo caminho, acaba por retirar o peso do processo de treino da equação.

Nesse caminho, uma boa ideia é sempre uma boa ideia, mesmo quando deficientemente aplicada. Uma má ideia é sempre uma má ideia, mesmo quando trabalhada de forma consistente.

Um processo dialético, por sua vez, defende a organização do trabalho da equipa, permitindo a sua evolução até ao máximo das suas capacidades e características.

O “treinadorismo” impõe uma tabela de valores única, que conduz a uma certa ditadura de gosto, estilo e estratégia a todos os que o seguem. Não se respira bem, nesse ambiente. E por isso não faz grande falta a quem pensa o futebol.

Aproveitando os bons contributos de todos os analistas, é certo que um futebol mais interessante, inteligente, livre e produtivo, dispensa o “treinadorismo” por princípio.

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Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Autor no Expresso. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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