Em 2008, Michael Hirschorn escrevia que “a experiência tradicional de assistir à TV não precisa necessariamente morrer, mas, para salvá-la, o complexo mídia-indústria terá que agir de modos não-tradicionais e desconfortáveis e terá, igualmente, que repensar o que é TV”. O antigo vice-presidente do canal VH1 antecipava uma realidade que, hoje em dia, está em plena discussão no complexo mundo da comunicação. A luta entre os meios tradicionais e as novas formas de expressão vive-se, no entanto, para lá da realidade do consumo que se transformou de forma completa, independentemente da forma como aquele que transmite ainda se sente dono do conteúdo.

O futebol, como um dos produtos mais caros na guerra dos direitos de transmissão, vive esta problemática por dentro. A forma como o valor da retransmissão tem aumentado mesmo perante uma revolução dos consumos não deixa de ser um alerta para todos aqueles que estão envolvidos no negócio, seja para quem compra e transmite, seja para quem vende e baseia o seu lucro no valor dessa venda. A simples equação de ceder direitos pelo valor mais alto e fazer a cobrança do mesmo é, já hoje, um comportamento irresponsável perante o produto que se tem em mãos.

O desconforto de que Michael Hirschorn falava tem sido o momento mais difícil de atender para todos. No fundo, no meio dos negócios, conforto e previsibilidade é tudo o que se deseja (e, na maior parte do tempo, isso é impossível de alcançar). O debate no universo dos canais MTV (do qual a VH1 faz parte) passou sempre pela procura de novos formatos, uma evolução que acabou por trair boa parte do seu público e que levou, em vários casos, ao regresso aos velhos formatos mas, agora, em novos modelos de transmissão fora do espectro televisivo (os podcasts, os videocasts) que, em pouco tempo, passaram de novo a estar presentes nas grelhas.

Não são, assim, os formatos de programas que são questionados pelos consumidores, mas os conteúdos que cada programa apresenta. Todos temos essa experiência. Ouvir duas pessoas a conversar pode ser o melhor programa do mundo, tal como pode ser o pior programa do mundo. Ver três a quatro jogos de uma jornada pode variar entre um fim-de-semana memorável ou uma inacreditável perda de tempo. A velocidade a que tudo acontece e desaparece nos nossos dias influencia a ideia de que todos queremos formatos curtos, simples, diretos. Ao mesmo tempo que todos nós sabemos o que é ficar preso a uma inesgotável acumulação de temporadas da nossa série preferida.

Voltemos, então, ao desconforto. Nenhuma empresa que se sinta no caminho do sucesso poderá alguma vez ceder ao desconforto de dar carta branca a alguém para revolucionar o seu trabalho. Precisamos, quase sempre, de alguém que comece a fazer as coisas “mal feitas” (segundo a convenção vigente), para que se perceba um novo caminho a criar. Na minha experiência tenho estado várias vezes exposto a esta realidade. Tenha sido pela falta de reconhecimento mediático de um produto em que trabalhei, pela fragilidade de uma estrutura ou pelo simples facto de estar em casa sem mais nada para fazer. Em todos os casos, não ter a pressão do sucesso ajudou. Fosse na procura de experimentar formas de comentar jogos, fosse na liberdade para errar, fosse na intuição algo egocêntrica de querer fazer aquilo que me apetece.

A experiência de ontem na transmissão simultânea dos dez jogos da jornada 37 de LaLiga na Eleven Sports 6 lança para a discussão um dado curioso. Numa altura em que temos disponível uma enorme quantidade de jogos de futebol (nunca houve tanta possibilidade de escolha como hoje), a possibilidade de enfrentarmos um encontro sem grande capacidade de atração da atenção é bastante grande. Mas, se conjugarmos vários jogos numa mesma emissão e oferecermos 90 minutos de golos, jogadas de perigo, penáltis, decisões do VAR e mexidas na tabela classificativa, então até os jogos que nunca quereríamos ver podem transformar-se num produto aliciante. Não é preciso inventar nada. É certo que se foi a possibilidade de ver futebol ao vivo desde muito novo que me conquistou para o acompanhar, a experiência de imaginar o corropio de golos nas longas tardes de relatos de futebol ouvidos na rádio terá sido o que me alargou definitivamente os horizontes para me viciar neste jogo.

O desafio que se coloca agora a quem transmite futebol passa pela medição do alcance que cada opção pode ter. Se é certo que os jogos transmitidos à sexta-feira ou à segunda-feira à noite permitem chegar a muito mais gente por ocuparem um intervalo de tempo que está menos sobrecarregado, a forma como estes prejudicam a presença dos adeptos no estádio deve ser um tema de discussão entre operadores e clubes. Até porque aquilo que os clubes vendem não deverá ser, uma vez mais, o simples direito de transmissão, mas um pacote que vise entender o posicionamento da sua Liga no espectro de audiência possível nos mercados onde têm mais seguidores, mantendo uma equilibrada relação com o adepto que tem possibilidade de ir ao estádio. E estádios cheios, uma vez mais, valorizam o produto que está a ser transmitido. A sobreposição de jogos em determinados horários do fim-de-semana pode acabar por ser uma solução mais vantajosa para quem detém os direitos, bem como uma opção mais apetecível para a consome.

Mais uma vez, o formato 90 minutos mantém-se preservado, bem como outro tipo de formatos, desde as conversas sobre o jogo, as entrevistas, as reportagens junto de atletas, clubes e adeptos não estão tanto em causa como a forma como se permite que a criatividade possa ser exercida sobre eles. Da mesma maneira que, hoje em dia, já não faz sentido perguntar porque é que a transmissão deve ser sempre uma conjugação de entretenimento e conhecimento, nem porque é que as redes sociais têm um papel e devem ser utilizadas na transformação do produto que se mantém adequado a quem o consome. Não é o formato que está em causa, é o que se faz com ele. Sempre foi, de certa maneira, essa a história da humanidade. Não ter medo de se colocar em posição desconfortável para que, no fim, se saia a ganhar.

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