Ao vencer a Nigéria por 2-0, a seleção do Madagáscar terminou a fase de grupos sem derrotas, em primeiro lugar do Grupo B. Falem-me dos vossos sonhos e dir-vos-ei quem são.

Antes do início da partida, Pascal Razak, central da seleção do Madagáscar e jogador do Saint-Pierroise, da Ilha da Reunião, mencionava o orgulho que significava representar as ilhas do Oceano Índico numa prova da dimensão da CAN. O sonho que nos é permitido pelo futebol começa aqui. Sermos maiores do que nós próprios, maiores do que um país. Porque Pascal Razak enfrentou, ontem, jogadores que atuam na Liga dos Campeões, que ganham milhões na Liga Chinesa, quando está habituado a defrontar equipas amadoras e com exceções raras de confrontos nas pré-eliminatórias da Liga dos Campeões Africanos ou da Taça de França.

As palavras de Pascal Razak percebem-se melhor quando o vemos jogar. A dedicação que coloca em cada jogada, a maneira como lidera, pelo exemplo, companheiros que até jogam em conjuntos mais competentes do que o seu. Pascal Razak já não terá outra via para chegar a uma grande carreira. Mais de 30 anos, passagem pelas divisões mais baixas pelo futebol francês, regressou recentemente para perto de casa. A forma como Nicolas Dupuis inspirou a revolução do futebol da seleção do Madagáscar, com o apoio do novo presidente da CAF, Ahmad Ahmad, procurando descendentes por onde fosse possível para competir no contexto continental apanha-o no zénite da sua carreira.

O sonho da seleção de Madagáscar é tão poderoso que até jogadores profissionais de topo não resistem a vivê-lo. Jérémy Morel, jogador do Lyon, ofereceu-se para jogar com a equipa, ajudando na qualificação. Apesar de lesionado, manteve-se no grupo nesta CAN e tem sido do banco que vem acompanhando uma caminhada inacreditável. Porque a tendência é vermos um estreante na competição render um pouco abaixo do radar, como uma curiosidade que aparece e arrisca-se a desaparecer ao fim da fase de grupos. O Madagáscar quis diferente. Competente nos diversos momentos do jogo, a querer fazer apenas aquilo que sabe fazer, revelando a forma como a experiência no contexto futebolístico pode vir de tantas bases e origens diferentes que, no momento de defrontar a Nigéria, um gigante africano, venceu sem deixar dúvidas em campo sobre quem foi melhor no jogo.

Por isso, a faltarem dois dias de competição na fase de grupos da CAN 2019 digo-vos, deixem-me sonhar como o Madagáscar, esse sonho que é caminho feito e vontade de querer mais, mesmo aquilo que todos em tua volta dizem ser impossível. Mais um dia, mais um passo, encantado com a beleza daquilo que o jogo nos oferece.

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