Tudo é impossível até que, um dia, acontece. A África do Sul eliminou o Egito nos oitavos-de-final de uma prova que a seleção dos Faraós organizava e onde era, quase unanimemente, considerada favorita ao título. Mas esta é uma história com muitas histórias dentro.

Um Egito – África do Sul é uma espécie de jogo síntese do futebol africano. Se é certo que várias outras seleções têm povoado a imagem do continente com sucessos nas grandes competições internacionais e jogadores inesquecíveis, ver uma partida entre estas duas equipas no Estádio Internacional do Cairo é perceber um pouco mais do que move, nos nossos dias, o futebol africano.

Claro dominador da cena competitiva africana, o Egito teve sempre a vantagem de se apresentar como um país de forte capacidade financeira e estrutural que lhe permitiu, no futebol, estar anos à frente da sua concorrência. Participante do futebol internacional, num Mundial e em diversos Jogos Olímpicos, ainda antes da fundação da Confederação Africana de Futebol, o país projetou também dois dos clubes mais poderosos do continente, no Al Ahly e Zamalek.

A África do Sul, por sua vez, foi bastante tardia a chegar à cena internacional. Apesar de ter sido um dos fundadores da CAF em 1957, a situação política do país, radicalmente contrária à ideia de uma África livre que, por essa mesma fase da história, permitia uma renovação do contexto em todas as áreas da sociedade, só na última década do Século XX se tornou rival competitivo. Mas, na verdade, fê-lo em grande estilo, com os Orlando Pirates a conquistarem a Taça dos Campeões Africanos em 1995 e a seleção dos Bafana Bafana a vencer a CAN em 1996.

Ora, é dessa mesma edição da CAN que vem o primeiro grande confronto entre o futebol destes países. Na fase de grupos da prova organizada pela África do Sul de Nelson Mandela, na sua primeira grande demonstração do que pretendia ser enquanto país, o Egito calhou no mesmo grupo A. Chegados à derradeira jornada, com a África do Sul já com duas vitórias e praticamente apurada, os Faraós fizeram pela vida e, perante apenas 20.000 pessoas, venceram os Bafana Bafana por 1-0, com golo de El Kass. Este resultado não colocaria, no entanto, em causa o apuramento da África do Sul para os quartos-de-final, tendo acabado por festejar o título em casa.

A derrota dos Bafana Bafana frente ao Egito acaba, no entanto, por ser a única sofrida em casa numa fase final da CAN. Na outra vez que a África do Sul organizou a prova, em 2013, sobreviveu à fase de grupos com uma vitória e dois empates, caindo no desempate por penáltis frente ao Mali nos quartos-de-final. O histórico de confrontos entre Faraós e Bafana Bafana estava, no entanto, longe de se dar por terminado, aliás, estava mesmo só a começar. Em 1998, no Burkina Faso, encontram-se na final, com os sul-africanos incapazes de defender o seu título perante um Egito mais forte, que acabou por vencer por 2-0, com golos de Ahmed Hassan e Mostafa.

Uma rivalidade mantida à força dos clubes

Com o poderio dos Bafana Bafana a perder intensidade ao nível das seleções, a rivalidade foi mantida entre os clubes. Entre a final de 1998 e o jogo da CAN 2019, por três vezes os conjuntos dos dois países se defrontaram na final da Liga dos Campeões Africanos. Em 2001 e 2013, o Al Ahly do Egito festejou o título, batendo os Mamelodi Sundowns e os Orlando Pirates. Em 2016, acabaram por ser os homens da África do Sul a festejar, com os Sundowns a baterem o Zamalek.

Entre seleções, para lá de jogos amigáveis, apenas dois confrontos no ano de 2011, na caminhada para a CAN 2012, onde ambas acabariam por falhar a presença. África do Sul aproveitara a crise dos Faraós para somar dois resultados positivos, vencendo-os em casa por 1-0 e empatando sem golos no jogo seguinte, pontos, ainda assim, insuficientes para bater o Níger.

Mas a história sempre se encarregou de meter estes dois países no caminho um do outro. No primeiro Mundial de futebol disputado em África, foi a África do Sul quem se superiorizou às candidaturas dos países do Magrebe. Na disputa de jogadores e destaque entre as provas internacionais, Liga Egípcia e Liga Sul-africana andam a par e passo. Faltava reviver as emoções entre os dois países num jogo de seleções.

Ninguém esquecerá 2019

Nas quatro vezes anteriores que o Egito organizou a CAN, só por uma vez, em 1974, não acabou vencedor. Sem grande surpresa, aliás, porque nesse ano era o Zaire a grande potência do continente, em vésperas de fazer a sua estreia no Mundial. Os zairenses obtiveram, também, a proeza de serem a primeira seleção a vencer o Egito numa competição internacional disputada no país, feito que só se voltara a repetir na abertura da CAN 1986, quando o Senegal venceu os Faraós, sem os desviar, no entanto, de mais um título caseiro.

2019 tinha tudo para ser um ano especial. CAN organizada em casa, equipa reconhecidamente forte e organizada, mesmo um depois do regresso ao Mundial onde voltou a não convencer, um líder em campo, Mohamed Salah, que foi o primeiro egípcio a conquistar a Liga dos Campeões Europeus. Para além do mais, jogando sempre perante um estádio cheio, o Egito transmitia uma noção de poder que nenhuma outra seleção poderia igualar, tendo batido, sucessivamente, Zimbabué, República Democrática do Congo (o antigo Zaire…) e Uganda.

Para os oitavos-de-final desta nova CAN a 24 equipas, os Faraós tinham destinado encontrar o pior dos terceiros classificados a conquistar o apuramento, ou seja, a equipa que tinha feito pior prestação na fase de grupos daquelas que ainda se encontravam em prova. A África do Sul. Uma seleção dos Bafana Bafana marcada pela sua história de sempre. Jogadores que, no contexto de clube, jogam de forma dominante no continente, passados para a seleção, como que afetados por um medo de palco que os levou a perder, sempre com erros individuais, com Costa do Marfim e Marrocos, valendo-se de uma vitória, também pela margem mínima, frente aos vizinhos da Namíbia.

O pior adversário possível

Já disse no início do artigo, um Egito – África do Sul é uma espécie de jogo síntese do futebol africano. Catorze jogadores egípcios evoluem no seu campeonato nacional, com seis deles entre os titulares dos Faraós. Nos Bafana Bafana, são dezassete os jogadores que atuam na Liga Sul-africana, com sete entre os titulares. Quando, na noite do passado sábado, entraram em campo, a equipa da África do Sul sabia exatamente o que iria encontrar no relvado e no ambiente que o rodeava. Pressão máxima para o Egito vencer, frente a uma equipa que, no Cairo, poucos consideravam.

E, no entanto, esta seleção do Egito ainda nunca revelara capacidade para se sobrepor aos adversários. Apesar das três vitórias, apenas frente ao Zimbabué o Egito tinha criado melhores oportunidades de golo, num jogo onde a exibição coletiva tinha sido bem cinzenta. Perante República Democrática do Congo e Uganda, as vitórias tinham aparecido apesar dos rivais se terem apresentado mais fortes. Do outro lado, os Bafana Bafana, nas duas derrotas somadas perante equipas mais fortes, tinham sido capazes de revelar boa organização defensiva, apesar dos erros individuais. As lacunas ofensivas pareciam muito marcadas por uma postura de medo perante o erro. Mas tudo estava para mudar.

Stuart Baxter, selecionador dos Bafana Bafana, tinha dito há uns dias que os seus jogadores tinham que se libertar da necessidade de repetir o feito de 1996. Não se pode continuar a viver perante a expetativa de um contexto que já não existe. Para o encontro frente ao Egito, sem Zwane disponível devido a suspensão, o inglês chamou Lorch, uma das figuras da Liga da África do Sul, que nunca tinha sido utilizado na CAN. Junto de Percy Tau e Mothiba, dois jogadores que atuam na Europa, construiu um trio de pequenos diabos a perturbar, com uma pressão intensa, a primeira fase de construção dos Faraós. Furman, Mokotjo e Zungu constituíam uma segunda linha de defesa, impossível de ultrapassar. Atrás, os laterais Mkhize e Hlanti fizeram um pacto de não errar e acabaram por condicionar totalmente a ação de Trézéguet e Salah.

Disse-o logo no início do jogo, a África do Sul terá que enfrentar a eventualidade de um erro defensivo com maior capacidade ofensiva. Marcar primeiro tornará o contexto do jogo bem diferente. O golo demorou a chegar, mas a atitude ofensiva era já outra. Com bola, os Bafana Bafana criavam sempre mais perigo do que os Faraós senhores de uma posse sem capacidade de ferir nem agressividade a ultrapassar linhas. Todo o jogo apontava para esse desfecho trágico e inesperado. A impaciência foi tomando conta das bancadas, as soluções de Javier Aguirre e dos seus jogadores não tinham qualquer efeito e Stuart Baxter não fazia substituições num conjunto onde, mesmo com menor energia, se continuava a bater de igual para igual com os poderosos homens da casa.

Perto do minuto 86, a história escreveu-se numa bola que vai chegar aos pés de Mothiba quando só Hegazi tinha ficado para trás na subida do bloco egípcio à procura do golo. Mothiba recebeu e orientou o esférico para Lorch, que escapava no corredor central. Na cabine do Eurosport, eu e o Alexandre Afonso levantámo-nos na expetativa de ver Lorch a ser perseguido por um punhado de egípcios desesperados. Na cara de El Shenawy, o homem dos Orlando Pirates decidiu bem e fez o golo. Uma das grandes histórias da CAN 2019, senão a maior, estava escrita. Tudo é impossível até que aconteça. Vinte e três anos depois, os Bafana Bafana pagaram na mesma moeda a derrota sofrida em casa, desta vez sem volta atrás para o Egito.

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Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Autor no Expresso. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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