Realizou-se no passado sábado, em Torres Vedras, o encontro “Ética no Desporto – Encontro de Agentes Desportivo”, numa organização da Câmara Municipal local. Como moderador na mesa da manhã, tive oportunidade de explorar algumas ideias sobre o tema. 

Faz parte da minha experiência no desporto, tal como da maioria das pessoas presentes na sala, as ideias-base do que constitui a Ética no Desporto. O respeito pelas regras, pelo adversário e pelo árbitro, o jogo limpo, a tolerância, a amizade, a verdade, a persistência e a disciplina. O desporto, para a grande maioria de nós, oferece-nos memórias bastante positivas, ou não teríamos continuado, para além da juventude, dedicados a diferentes modalidades, como treinadores, como dirigentes, como analistas, como adeptos. 

Esse conjunto de experiências positivas forma, sem dúvida alguma, um corpo de aprendizagens e vivências que deve ser transmitido àqueles com quem trabalhamos. Por isso mesmo, para lá do estudo das temáticas da Ética constantes no Plano Nacional da Ética no Desporto (PNED), para lá das leituras e das teorizações que devemos fazer, o mais importante é que saibamos transmitir este conjunto de valores aos mais jovens com a paixão que temos, com aquilo que nos fez continuar ligados à modalidade, com aquilo que é a nossa visão da mesma. Só uma transmissão apaixonada cativa os outros a comportarem-se à imagem dos valores da Ética. 

Atitude – afinal existe

Em muitas análises no desporto, combatemos a questão da “atitude”, porque nos parece, aos analistas e técnicos de desporto, uma má-interpretação de algo que terá explicações táticas ou estratégicas na modalidade que observamos. No entanto, a “atitude” existe e é válida no desporto, porque observando os valores da Ética, estes transmitem-se, acima de tudo, através de atitudes e ações.

Pensemos nos exemplos positivos e negativos que os treinadores transmitem, no entendimento da postura enquanto dirigentes, no papel dos pais e nos exemplos que os jogadores mais velhos e profissionais terão sobre um jovem. É no campo das atitudes, de jogadores, de treinadores, de dirigentes, que os valores da Ética são transmitidos. 

Esses exemplos devem, ainda, ter uma continuidade nos estádios, nos pavilhões, na televisão, nas redes sociais. Enquanto analistas e técnicos de desporto, temos a responsabilidade de saber sempre medir as nossas ações e atitudes de uma forma constante e consistente, que nos permita ser, sempre, esse exemplo positivo. 

A consistência nas ações é, assim, fundamental. Nas nossas análises e na nossa participação no fenómeno desportivo, devemos contribuir para os valores de uma Ética no Desporto (e na vida!), independentemente de o fazermos enquanto atletas, enquanto treinadores, enquanto analistas, enquanto adeptos. O eu-adepto não se deverá envergonhar do eu-atleta, tal como o eu-analista deverá ser consistente com aquilo que defende o eu-treinador.

Caminho para a Ética

Na minha opinião, o caminho para a Ética passa pela transparência. Explicando o jogo e as suas decisões táticas e estratégicas, explicando o negócio que se gera a partir da competição desportiva e os seus impactos em todas as partes, explicando as decisões arbitrais e judiciais, só um ambiente de transparência pode contribuir para uma vivência ética no desporto.

Neste caminho, importa perceber, da parte dos treinadores, um discurso que contribua para o entendimento do jogo e das suas decisões (compreendendo que, por vezes, a sua defesa estratégica assenta numa comunicação que disfarça alguns destes fatores). Da parte dos dirigentes, exige-se um comportamento transparente nas decisões sobre mudanças de comandos técnicos das equipas, na forma como influencia, ou tenta influenciar, os outros elementos do seu clube, na forma como se relaciona com outros clubes na competição. Também nas entidades organizadoras das competições esse papel é fundamental, para que a defesa do adepto possa ser feita em condições e não em situação de luta entre quem pretende fins semelhantes. 

O desafio que a Ética no Desporto nos coloca reside, assim, no espaço da colocação no lugar do outro. Essa colocação não se faz do ponto-de-vista do avaliador (“eu faria melhor”, “até eu marcava este golo”, “o árbitro não viu a falta”), mas do ponto-de-vista da compreensão. Compreender porque foi realizado determinado gesto técnico, porque foi assumida certa estratégia no jogo, porque foi tomada determinada decisão. Respondendo a esse desafio, cada um de nós poderá encontrar o espaço de afirmação no campo da Ética. 

Alargada presença no encontro realizado em Torres Vedras

A sessão da manhã foi aberta com a apresentação do Programa Municipal de Formação de Agentes Desportivos e do Programa Municipal de Promoção da Ética no Desporto, por César Costa, continuando depois com as apresentações de Vítor Santos, embaixador do PNED, Sérgio Galvão, Presidente da Associação de Educação Física e Desportiva(AEFD), e Rui Moura, responsável do Gabinete de Psicologia do Sport Clube União Torreense(SCUT). 

Os trabalhos realizados no concelho de Torres Vedras permitiram à AEFD ser o primeiro clube a receber a Bandeira da Ética no Desporto, através de diversas iniciativas que merecem uma atenção mais cuidada, sendo o SCUT também candidato a que, durante este ano, veja atribuída a mesma distinção. O projeto Escola Pais Parceiros foi o que mereceu maior destaque nesta sessão. 

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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