Vivem-se tempos de impaciência na sociedade, com claro impacto nas decisões dos treinadores de futebol. Esta semana, Julian Nagelsmann falou sobre o caso de um jovem jogador do plantel do RB Leipzig e Jesualdo Ferreira foi confrontado com a forma de jogar da sua equipa após o segundo jogo do Santos. 

Os sinais apontam no mesmo sentido. Por um lado, jogadores que não vêem como aceitável estar fora das opções de titular e pretendem sair. Por outro, uma equipa que começa a sua temporada e está exposta, no imediato, a competição no Estadual, é medida à imagem do trabalho do técnico da época passada. Ainda restará tempo para o projeto num futebol profissional?

Jogar ou não jogar

A tendência atual é que todos os jogadores que não são titulares pretendem sair no imediato. [Para os mais jovens] creio ser uma virtude a capacidade de trabalhar em algo, mesmo que numa determinada fase da tua carreira as coisas não estejam a correr bem. Na vida, ninguém vai ficar bem se fugir sempre do que corre mal.” – Julian Nagelsmann, na kicker.de

Hannes Wolf, um jovem austríaco de 20 anos, chegou esta temporada a Leipzig procedente do FC Salzburg. Uma lesão impediu-o, até agora, de se afirmar no onze muito competitivo do líder da Bundesliga, mas começa a aparecer como opção no banco da equipa. Ainda assim, e com o Europeu 2020 em mira, onde espera estar com a seleção da Áustria, Wolf demonstrou-se insatisfeito e quer sair para jogar mais minutos. 

Julian Nagelsmann entende que este é um não-assunto para o Leipzig. Não espera que todos os jogadores estejam satisfeitos, sabendo que nem todos terão o tempo de jogo que desejam. Mas a constituição de um plantel faz-se, exatamente, deste tipo de tensões e características. O técnico alemão preocupa-se com o facto deste tipo de reações se ter tornado uma tendência, algo que se assiste, inclusive, nos escalões de formação, onde a vontade de mudar após uma ou duas jornadas de não utilização se vai transformando em regra.

Para Nagelsmann, o conselho dado a Wolf inclui que passe “seis a sete semanas a trabalhar antes de sair”. O projeto de jogador está fortemente colocado em causa pelo facto de não enfrentar qualquer período negativo em termos de utilização. Jogar ou não jogar acaba por ser o pensamento único de quem não se importa de entrar numa espiral de eterna mudança. Mas nem jogadores, nem equipas se podem construir desta forma.

O tempo e o modelo

Eu tenho dois jogos no Santos. Não sei o que vai acontecer. […] Eu vou preparar a minha equipa e a minha equipa vai jogar ao nível de alguns dos jogos do ano passado nalgumas ocasiões, mas noutras terá mais dificuldades, como todas as equipas. […] Só se joga de maneira intensa quando se tem capacidade para jogar com intensidade. Você não me conhece há um ano, só conhece há quinze dias” – Jesualdo Ferreira, na flash interview após o jogo Guarani – Santos. 

É bom que se pense porque é que um treinador com dezenas de anos de carreira, forte ligação à formação de treinadores e uma experiência de vida marcada afirma “não sei o que vai acontecer”. Não se trata de mera sinceridade perante um projeto complexo. Pelo contrário. É a consciência total de que o processo e modelo de treino têm implicações diferenciadas conforme o grupo de jogadores que estão ao dispor. Esta situação acentua-se, claro, quando um treinador enfrenta um novo país e continente no seu currículo. O futebol é igual em todo o lado, dizem, mas a sociedade não. 

É óbvio que faz pouco sentido formalizar certezas sobre uma equipa que tem duas semanas de treino e dois jogos de competição nesse período. Muito menos fazendo-o em comparação com o ideal de uma temporada passada, comparando momentos diferentes. O repórter que lançou a pergunta a Jesualdo não o fez para comparar com o segundo jogo de Sampaoli, mas com o melhor período do argentino à frente do Santos. Procura-se fazer notícia onde ela não existe. Mas, acima de tudo, transporta-se para um território de análise aquilo que é uma impaciência brutal sobre os resultados das coisas que se fazem. 

Jesualdo Ferreira vai precisar de tempo. Não é algo que dependa dele, mas que faz parte de como se vive o processo de construção de uma equipa. Na sua história, não existem casos de mudanças súbitas de comportamentos nas equipas onde trabalhou, nem o contexto atual do Santos permitiria isso, pelo ponto em que a equipa ficou no final da época passada e pela ausência de reforços que permitam mexer profundamente no jogo do Santos. 

Ao treinador cabe estar consciente desse processo. Ao treinador caberá liderá-lo, planeá-lo, executá-lo, fazer a sua gestão. E depois, o que vier a acontecer, acontecerá. É assim que as equipas evoluem, não delineadas por aquilo que o treinador quer, mas influenciadas pela qualidade de um trabalho consciente e reconhecido. Tal como ao jogador cabe fazer o mesmo, percebendo que as avaliações não se fazem ao fim de duas ou três semanas. O melhor treinador, o melhor jogador, a melhor equipa, nascem do tempo que conseguem para evoluir. 

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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