Hoje, mais do que nunca, procuro no que aprendi com o futebol e com o desporto respostas para as dúvidas que nos assolam. Porque aquilo que éramos antes deste isolamento é aquilo que temos para ser num momento de defender a nossa saúde, de forma integral.

Por estes dias nada parece mais importante do que a saúde. É um exercício normal no ser humano. Procurar respostas límpidas e serenas para os problemas que sente. A saúde está, hoje, primeiro, porque é a nossa saúde que parece atacada pelo vírus que nos encerra em casa e nos isola uns dos outros. No entanto, esse pensamento é bastante cruel para todo o resto das nossas vidas. Quando oiço tanta gente a dizer e a escrever que isto e aquilo não é importante agora, parece-me que todos decidiram fazer um intervalo nas suas vidas onde aquilo que eram antes do isolamento não significa nada para aquilo que são, agora, durante o mesmo. Por isso decidi escrever sobre as coisas que aprendi com o futebol e com o desporto.

Coisas humanas

A primeira delas, creio eu, tem que ver com a identidade, com o te identificares com algo. Terá sido através do futebol que senti isso. Ao ir ver os jogos do Grupo Desportivo da Serra da Vila e, depois, os jogos do Sport Club União Torreense, aprendi o que é poderes-te identificar com um todo, um grupo de gente que quer e espera a mesma coisa. Essa identidade foi-se alargando em redor do futebol porque o futebol é um gerador de comunidades. A comunidade que se reúne em redor de uma equipa. A que se cria no café onde se vai ver os jogos. A que discute o que ouviu na rádio. A que se entende para aprofundar o conhecimento do jogo. Se olhar para trás, creio que tudo começou por aí, esse encanto de pertencer, até antes da experiência estética. 

A estética é uma questão importante. Porque tantas vezes sublinhada na forma como o futebol ou outra modalidade nos atrai, mas que requer uma reflexão mais profunda sobre o caso. Ou seja, sim, claro, a bola que salta, as equipas que se alinham, a correria pelo campo, tudo isso é uma experiência que vais acumulando na cabeça até que um dia, mais tarde, a podes classificar como estética. Há um encanto associado ao movimento que te convoca para uma dança – tantas vezes o nosso corpo, sentado na bancada ou de pé, junto do muro, nos impele para, também, chegar a essa bola imaginária. Mas foi um caminho mais longo, coberto de outros tantos cruzamentos. 

O ser humano apareceu com enorme esplendor nessa aprendizagem do mundo através do futebol. A capacidade para pensar e fazer o inesperado, como um drible ou um remate, um voo para uma grande defesa ou um cabeceamento sobre a linha que salva a margem mínima do resultado. O humano do treinador que tem que decidir quem joga e quem fica no banco, que tem que saber o exato momento de fazer uma substituição ou ordenar uma troca em campo. O humano de quem é insultado e se mantém sereno. O humano de quem não precisa de nada para se tornar agressivo, violento. O carrancudo em campo que afinal era uma ótima pessoa fora dele. Os homens, muitas vezes, só sabem amar quando parecem furiosos com a vida. O futebol foi, nisso, uma aprendizagem. 

Do humano passou-se ao discurso. Já terei escrito algures que aprendi a ler para poder perceber os nomes dos jogadores na Gazeta dos Desportos (o meu preferido no que ao resumo dos jogos das partidas porque, para além dos nomes, trazia os números das camisolas de cada um!). E de ler e ouvir, aquela perceção da importância do discurso, do que se diz antes dos jogos, do que se diz depois. A tensão crescente dos dias da semana a caminho de mais um domingo de jogos, a capacidade de perceber o que se tinha passado nos campos do país inteiro, quando o Domingo Desportivo apenas nos levava a viajar por curtos resumos. Era a palavra, a palavra que desvendava a realidade, e isso aprendi-o de forma muito clara, muito cedo, com o futebol.

No meio disto tudo, em volta do jogo, aprendia-se a gerir emoções. Porque ao domingo, era certo, dia de jogo. A caminho do campo da Serra da Vila do do Manuel Marques. Depois em viagens pelo país. Toda aquela emoção de ir até lá para ver. Para sentir. À espera do golo. À espera da festa. Aprender a gerir-se o que se sente, porque depois do jogo a vida continua. No lanche, no caminho de casa. Mas ainda aquela tarde em Vila das Aves que, no meio de um grupo de homens mais velhos, eu, o puto, foi o único a saltar e a festejar o golo do Torreense, o que levou um avense a vir-me cumprimentar pela vitória. Aprender a ver e a sentir. Sim, foi ali, no meio de um jogo qualquer, que isso se tornou evidente.

A voar num mapa-mundo

Quase toda a geografia que sei, conheci-a através do futebol. Associar os nomes das equipas às cidades leva-me, ainda hoje, a procurar mentalmente que clube pertence a determinada localidade. Quem me conhece melhor já me terá ouvido dizer “não deve ter nenhuma equipa conhecida, porque não sei onde é”. Se tem equipa, então é fácil associar a um qualquer campeonato (A Zona Sul da Terceira Divisão de Basquetebol ou o Campeonato Distrital de Futebol de Beja, ambos servem). Depois de se reconhecer a geografia europeia pelas competições europeias, a das Américas pela Libertadores e Copa América, a de África pela CAN e por aí fora, a importância dada às capitais de cada país. Ali onde na maior parte dos casos jogam as seleções, mas também na forma como se sublinha as exceções a estes casos (será que a RFA alguma vez jogou no Sportpark Nord de Bona?)

Do conhecimento geográfico, veio o conhecimento da política. As seleções que recusam defrontar-se. As equipas que criam rivalidades baseadas nas origens sociais dos seus adeptos. O olhar ideológico que vestir esta ou aquela cor pode ter. Os clubes que se associam a uma forma de ver o mundo. O mundo que leva clubes a transformarem-se no passar dos anos da sua história. O futebol é uma constante ponte para outros conhecimentos que te levam a não parar nunca de perceber, de entender, de conhecer. E nessa roda que não para, aprendemos ainda mais coisas que nos serão essenciais para a vida.

A análise

Analisar o jogo começa por ser um gosto que nos leva a esforçar por entender melhor as coisas. Entender de forma mais profunda aquilo que temos perante os olhos. O perceber porque acontece. Se, de pequenos, quando entrámos dentro do campo, nos fosse possível perceber toda a organização que nasce dentro de uma equipa, frente a uma outra, dentro de um terreno delimitado para o jogo, talvez o jeito não fosse tão importante. A falta de jeito leva-nos para a bancada e, pelas nossas limitações, começamos a entender o que acontece. Acontece essa organização, que é tática, que é estratégica, que desafia as capacidades físicas, que envolve o pensamento, a imaginação, a criatividade, o gesto inaugurado num momento de extrema necessidade (chegar à bola, chegar ao golo).

Quanto mais se analisa o jogo, mais encontramos o que nos desperta a dúvida. E essa dúvida leva-nos a ler, a perguntar, para saber. À análise que os olhos chegam, junta-se a a análise dos dados gerados pelo que acontece no jogo. Aprender a lidar com os números do desporto, começando pelo resultado e pela implicação deste na classificação do campeonato, mas entendê-lo para lá disso mesmo, em cada estatística, não a estatística que define, mas a que pergunta, a que nos quer fazer pensar sobre cada gesto, cada evento, que acontece dentro do campo. Aprende-se assim a analisar um gráfico, a usar uma tabela de excel, a ligar os pontos entre o que vemos e esses outros dados. Imaginem como seria se, neste isolamento, todos tivéssemos o hábito e aprendizagem consolidada para lidar com análises de dados. 

A vida é isto mesmo

Porque o futebol está sempre, não é agora que passará para segundo. O futebol ensina-nos que a vida é isto mesmo, é mesmo assim, um dia fazes tudo bem feito e perdes, na semana seguinte falhas todos os planos desenhados e preparados e acabas por ganhar. Pedem-se respostas definitivas e seguras para cada uma das coisas, mas o desporto já me tinha ensinado que não é isso que o mundo tem para nos dar. O mundo arruma-se de forma bastante mais insegura, inconstante, desalinhada. O esforço que temos que fazer para perceber o que acontece exige-nos uma atenção constante, a perceção do pormenor, o reescrever da análise sem perder o fio condutor de uma certa continuidade. No futebol aprende-se a ganhar e a perder e na semana seguinte entramos de novo em campo, prontos para enfrentar essa incerteza que uma bola a saltar nos proporciona. Essa capacidade nunca deixa de ser a mais importante na vida. Começar de novo, começar outra vez, a cada dia. A minha saúde precisa disso. 

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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