Fernando Gomes, presidente da FPF, teve hoje uma reflexão sobre o momento do futebol português publicada em vários jornais nacionais (desportivos e generalistas). Nesse artigo, ficam marcadas aquelas que serão as linhas-base de uma transformação do nosso futebol. O novo mandato será o momento de aplicação das mesmas. 

Nenhum dos temas tocados no artigo de Fernando Gomes são uma novidade, ou algum agente do futebol nacional se poderá dizer surpreendido por os ver, assim, expressos publicamente pelo presidente da FPF. Foram sempre princípios que a sua ação deixou clara, enquanto defesa daquilo que entende dever ser o enquadramento do futebol português. 

A diferença está no facto deste artigo surgir num momento em que, de facto, o raio de ação da FPF recebeu o respaldo necessário para assumir, sem espaço para dúvidas, que a sua liderança pode adoptar um posicionamento mais intervencionista nos problemas que vão subsistindo. A pandemia, aqui, não foi uma oportunidade: foi o ponto de saturação de uma indústria que se viu obrigada a olhar para o espelho. E, de outro lado do espelho, está a FPF. 

A reflexão de Fernando Gomes começa pelo reconhecimento do desafio que o regresso à competição (na Liga NOS e na Taça de Portugal) implica. Fica claro, logo nos parágrafos de abertura, que o presidente da FPF entender o regresso do futebol não como um direito que assiste à indústria, mas como um desafio que a esta é colocado. Mais do que nunca, existe a noção do futebol enquanto exemplo para a sociedade e esse desafio que Fernando Gomes demonstra que será inaceitável falhar. 

Depois, o planeamento, visto como essencial para o sucesso do futebol nacional. Em primeiro lugar, dando primazia “ao bem-estar comum, e só a seguir ao nosso interesse individual”. Isso implicará, nas palavras de Fernando Gomes, uma revisão da forma de organização económica e comunitária do futebol. As palavras “mudar”, “novo caminho”, reforçam essa necessidade de mudança. 

É também fulcral o entendimento do presidente da FPF de uma análise que ultrapasse a paixão. Essa tem sido, tantas vezes, uma desculpa esfarrapada para a tomada de más decisões, para a desculpabilização de ações erróneas. “Racionalidade”, “capacidade de estudar” e “prever” são conceitos que Fernando Gomes pretende impor na forma como o futebol português se organiza. A sua ação na FPF, até aqui, passa como exemplo a seguir. Fala bem, quem tem experiência para apresentar no mesmo sentido do que pretende ver nos outros.

Também fica claro que o “regulador” passará a regular de forma mais impactante. Já se tinha notado nas anunciadas reformas do Campeonato de Portugal, no que toca às normas a atingir pelos clubes inscritos, o que sai reforçado no não alargamento do número de equipas da competição (de alguma forma, percebe-se que nem todos os que têm direito desportivo poderão realmente inscrever-se na prova, abrindo aí espaço para várias promoções a partir dos distritais). 

Mas essa regulação pretende também chamar à pedra a Liga do Clubes, que na forma como vai defendendo interesses particulares, se desviou de uma linha que se entenda como parte do “bem-estar comum”. Ao colocar em causa a qualidade de empregos gerada nas competições profissionais, Fernando Gomes escancara as portas para a discussão obrigatória nas principais competições portuguesas. 18 clubes na Primeira Liga, mais outros 18 na Segunda Liga, não representam a capacidade de sustentabilidade do futebol e do país. Há que reduzir para melhorar. 

O texto prolonga-se com uma série de outras notas que marcam bem o espaço de intervenção que a FPF quer ocupar. Reconhecendo as limitações de ações tomadas até aqui (“podíamos ter feito mais”), accionando a necessidade de uma revisão dos quadros competitivos, denotando que aqueles que até aqui foram parceiros de crescimento do futebol português tiveram comportamentos diversos perante a situação de crise (“não deixaremos de nos lembrar dos que souberam estar ao nosso lado neste tempo difícil”), colocando em causa a dependência de operadores televisivos e competições europeias nos orçamentos dos clubes portugueses. 

O título “Futuro do Futebol não está garantido” pode soar alarmista, mas diz quase tudo sobre ao que vem Fernando Gomes com esta reflexão. A melhor forma de garantir um futebol sustentável reside na capacidade da FPF liderar o processo no futuro. Os trunfos estão, então, lançados para cima da mesa. Nunca um líder do futebol português terá sido tão incisivo, tão preparado, tão eloquente e tão claro na forma como pretende colocar em prática o seu plano. O futebol português talvez não estivesse preparado para isto. Não havia nada de que o futebol português precisasse mais do que isto. 

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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