O ar doutoral com que Nuno Espírito Santo aborda a sua função no Futebol Clube do Porto fazia desta conferência de imprensa um desastre previsível há algum tempo. A noite passada, no auditório do Estádio do Dragão, o técnico pediu um quadro branco. Este cenário (um treinador e um quadro branco) poderá ter levado, por alguns segundos, a imaginar que estaríamos perante uma situação típica de treinador que explica a organização da sua equipa Mas depois NES começou a falar.

Resumindo a intervenção de NES. O seu trabalho assenta em três pilares – Compromisso, Cooperação, Comunicação – e jogar “à Porto” é juntar esses três pilares em União, fundamental para criar a base do processo de treino e de jogo. Se à União se juntar a Determinação, chega-se à Atitude. NES considera que, se se der tudo, não interessará o sistema de jogo. É essa a Visão que ele quer implementar no clube.

Uma coisa ficou demonstrada. NES quer fazer dos jogadores do FC Porto pessoas melhores. À imagem de professor, NES poderia ter juntado alguma bibliografia, para entendermos em que autores da literatura new age ele encontrou fundamento para estes três pilares, juntando-lhe conceitos tão vagos como “União”, “Determinação” e “Atitude” para chegar a uma “Visão”.

A conferência de imprensa de ontem terá feito muito pelas fotografias de momentos épicos de “fait-divers” do futebol português, mas foi uma facada nas costas daqueles que estudam o jogo e encaram o desporto com um espírito científico. Levou para o campo do ridículo quem realmente pensa e estuda formas de encarar a formação dos jogadores e o elevar do rendimento, oferecendo uma caricatura triste e pouco fundamentada do papel que a ciência tem na alta competição. NES demonstrou o vazio teórico em que trabalha. E enquanto alguns se limitarão a rir perante o sucedido, o desporto em Portugal foi uma vez mais exposto a um ridículo que era evitável.

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