Três centrais ou linha de cinco defesas? Opção natural ou forçada pela oposição? O encontro entre o Real Madrid e o Manchester United lança a discussão da forma como nomeamos aquilo que vemos no jogo. Foi uma daquelas partidas onde só podemos lamentar não ter a opção de ver uma filmagem do jogo que capte todo o campo. Cada vez mais a complexidade táctica do jogo nos exige essa visão total para compreender exactamente aquilo que acontece no campo.

O Manchester United propôs-se a ir a jogo com dois centrais (Lindelof e Smalling) e dois laterais (Valencia e Darmian), mas na primeira parte apareceu no terreno de jogo com uma linha de cinco defesas que tentava cobrir todas as ameaças ofensivas do Real Madrid. Darmian era, muitas vezes, puxado para dentro, tendo em conta a capacidade do Real de colocar a maioria dos seus jogadores do lado da bola, com Lingard (ou Pogba) a fecharem o corredor esquerdo onde Marcelo aparecia a dar largura.

A análise aos dados estatísticos de posicionamento demonstram que Darmian não foi um lateral, raramente cumprindo a exigência de abrir e dar profundidade na faixa, mas também não foi um central, acabando por se posicionar a meio caminho entre as duas posições. O Manchester United, numa opção forçada pelo jogar do Real Madrid, precisou de esquecer os nomes dos lugares para encontrar os lugares onde se defender dos Merengues.

Esta assimetria é, no entanto, cada vez mais observável nas equipas de futebol. Ao contrário dos que os esquemas de jogo nos sugerem com o 4-3-3 ou o 3-5-2, as equipas não tendem a essa organização perfeita e equilibrada no rectângulo de jogo. Na verdade, jogadores de diferentes características dão diferentes respostas e exigem preocupações consequentes, conforme estejam a defender ou a atacar. Como um organismo vivo, a equipa de futebol adapta-se ao seu habitat e às contrariedades por este sugeridas.

Não é o esquema que está mal, apenas deixou de ser capaz de dar resposta às exigências da realidade. É este conceito de realidade em transformação que temos que aceitar e compreender para poder acompanhar aquilo que acontece no jogo ao mais alto nível. José Mourinho esperava que Zinedine Zidane abdicasse do seu jogo para se encontrar, com ele, num território mais controlado. Mas para o treinador francês, o ambiente onde se vive é já este, de uma complexificação das dinâmicas ao ponto de podermos encontrar as posições médias de metade da equipa num raio de onze metros.

A assimetria corresponde, então, à evolução da ideia de jogo acima do esquemático, do controlado, do xadrezístico. Já não precisamos de viajar para o futuro. Só temos mesmo que nos adaptar às exigências do presente. O próximo esquema ou é assimétrico ou não servirá para explicar nada do que acontece no jogo.

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