O Egito entrou a ganhar na CAN 2019, frente a um Zimbabué bem organizado e que quase surpreendia. O perfume do futebol africano alia-se, cada vez mais, à evolução do próprio jogo.

O futebol nunca é como querem que ele seja. Essa rebeldia própria do jogo é, talvez, um dos seus maiores encantos. Porque, no início dos noventa minutos, duas equipas bem preparadas assumem que entram em campo para o total mistério de controlar uma bola que salta. “Porque é que a bola pincha?”, perguntava, quase sempre que conhecia alguém, o velho António Medeiros, treinador de futebol. Aquilo que ele transformava numa piada era, a meu ver, a grande questão filosófica que um homem do jogo colocava a si próprio, como quem persegue, sempre sem encontrar, um cálice sagrado.

Mas o facto de a CAN 2019 não ser aquilo que algumas pessoas querem tem muito mais que ver com o aparente desconhecimento sobre a evolução do jogo no território do que propriamente com uma caixinha de surpresas que se tenha aberto no Cairo. Há bem uma década que a Taça das Nações Africanas tem vindo a revelar como o conhecimento e a evolução do jogo vão tocando todo o seu território. Muitas vezes esse crescimento faz-se contra a falta de condições (estruturais e financeiras) para se atingir, mais rápido, os objetivos. Mas não deixa de se fazer.

O Egito tem uma das Ligas mais competitivas do continente e vários jogadores a atuar a alto nível na Europa e isso sentiu-se na forma de pensar um jogo numa noite tórrida e de grande expetativa, um jogo em que não poderiam falhar. O Zimbabué, com os seus principais jogadores a atuarem na África do Sul (o guarda-redes Sibanda e o extremo Billiat) e na Bélgica (Nakamba e Musona) ofereceu-nos um exemplo do que os trouxe até aqui, uma equipa poderosa na procura da transição, capaz em termos defensivos, ciente das dificuldades mas a acreditar que pode competir com um favorito.

Foi um excelente cartão de apresentação para aquilo que se pode esperar desta CAN. Talento, organização, evolução. O futebol africano está de boa saúde e agradece. Se não podem ou não querem entendê-lo durante o resto do ano, aproveitem-no, pelo menos, durante este mês.

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Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Autor no Expresso. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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