Reiniciadas as competições na Alemanha, Portugal e Espanha, pode-se bem tentar medir os efeitos criados pelas transmissões televisivas deste “novo” futebol. As opções realistas ganham, claramente, à procura de criação de efeitos digitais – o futebol ainda não é um jogo eletrónico.

Uns dias antes do regresso do futebol, no Podcast Linha Lateral, discutia com o João Gomes Dias e com o José Pedro Pinto quais as mudanças necessárias para os comentadores que iam trabalhar numa realidade onde todos os jogos de futebol têm as bancadas vazias. O nosso foco estava no que poderia mudar em termos de comentário e relato do jogo, na forma como se teria que preencher uma realidade que, habitualmente, tinha um cenário bastante diferente. 

O que tínhamos como certo é que, para além do trabalho dos comentadores, estaria muito nas mãos de realizadores e técnicos de som a trabalhar nas emissões uma esforço para compreender o novo contexto e conseguir agir sobre ele. Para além disso, cada Liga e detentor de direitos dos jogos, tentou encontrar fórmulas para preencher as bancadas vazias. Umas com mais sucesso do que outras.

Opções diferentes para cada Liga 

Na Bundesliga, a primeira jornada trouxe pouca inovação, até pela decisão ter sido tomada muito em cima da data de regresso. Ao longo das jornadas, no entanto, percebe-se tentativas de melhoria. A procura de novos ângulos de filmagem, o que tem preenchido melhor os tempos mortos da transmissão, a utilização das bancadas para a passagem de mensagens de adeptos, seja através de imagens, faixas ou cachecóis, bem como a utilização de uma trilha sonora que, de todos os campeonatos até ao momento, é a que oferece maior aproximação à realidade, pelo tempo de reação aos eventos do jogo. Por outro lado, há também um acréscimo de dados estatísticos disponíveis durante a transmissão.

Na Liga NOS percebe-se que, quanto mais pequeno for o estádio, mais fácil é criar um bom ambiente. A generalidade dos clubes tem tentado criar efeitos nas bancadas, com publicidade ou com a colaboração de adeptos, tendo ainda o caso da Cidade do Futebol que oferece, em termos tecnológicos, uma solução bastante interessante. Parece-me evidente que acompanhar as transmissões sem efeitos especiais sonoros é melhor. Ter a possibilidade de ouvir os jogadores e os sons do jogo de forma muito mais aproximada do que é habitual, mais do que criar um vazio, tende a criar uma certa intimidade. A transmissão do detentor dos direitos oferece efeitos sonoros no momento dos golos (o que creio ser aceitável) e no final do encontro (claramente fora do tom do jogo), sendo que tem um outro canal disponível com efeitos criados através de uma app. O problema desses efeitos é que acabamos por ter um ambiente sonoro de estádio grande quando estamos a ver um jogo num pequeno estádio onde, realisticamente, nunca há uma perspetiva sonora dessas. 

Na LaLiga foi onde se terá arriscado mais em busca da criação de um ambiente, sendo que, no dérbi de Sevilha, o primeiro jogo disputado ontem, se pode dizer que a solução não convenceu. Em termos sonoros, oferece-nos uma linha lisa, sem grande ligação aos acontecimentos do jogo, fragilizada em relação à emotividade que o jogo real oferece. Em termos visuais, o efeito colorido das bancadas é tão plástico que chega a parecer ridículo, para mais, sempre entrecortado, nos ângulos das câmeras do relvado, com a visão das bancadas vazias. Ter começado mais tarde poderia ter dado tempo para refletir sobre as opções de outras Ligas. Ter arriscado nesta solução foi, a meu ver, um enorme tiro nos pés. 

O poder da escolha

Podendo escolher, vou sempre escolher a transmissão que me ofereça o som real do estádio vazio. As vozes dos jogadores e treinadores, o som dos passes e dos remates, a reação das poucas pessoas que estão, realmente, a ver o jogo. A competição e a ambientação dos jogadores a esta nova realidade levam a um entendimento dessa realidade. Por outro lado, como todos os efeitos sonoros acontecem, apenas, nas transmissões, nunca vemos os jogadores a reagir a eventuais cânticos ou protestos – o jogo ficou mais tranquilo nesta nova versão e a transmissão deve, a meu ver, respeitar isso mesmo. 

Volto, por isso, ao início. É no trabalho dos técnicos que levam o jogo até casa que deve estar o foco. Mais e melhores ângulos de imagem. Apurar da recolha do som junto do relvado. Maior emotividade na transmissão de informação de narradores e comentadores. Mais qualidade na análise e no entendimento de que se trabalha para comunicar com um espetador que está a viver o jogo com a paixão que caracteriza o futebol. Há trabalho a fazer. Para se poder viver melhor o jogo em casa, até ao dia em que, finalmente, se possa regressar ao estádios. 

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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